“Essa é uma história contada por mim,
Alice, e não por um outro que a contou por mim... Assim, esta é a história de
quando eu passei por um Espelho, mal sabendo que havia um outro Espelho, um
côncavo e o outro convexo...
Esta história se passa quando eu era
apenas uma menina inocente e tola... Bom, tola eu continuo sendo e sempre
serei, isto é algo que aprendi com a velha raposa (hahaha...), mas isso é outra
história... Só sei que num belo dia atravessei um espelho e assim começa:
Entre um espelho e outro, há um
espaço – cavidade – abrigo... Neste útero sagrado, diríamos assim, é um vácuo
entre mundos, os vivos chama de sonho, os mortos de Além... cada um o enxerga
de acordo com sua perspectiva, uns têm a vista turva, outros a percepção bem
nítida...
Só sei que enxerguei várias portas,
inúmeras delas: grandes e pequenas, tão altas quanto um arranha-céu, ideal para
gigantes, e outras bem pequeninas, perfeitas para formigas... me enamorei com
uma no chão, bem pequena também, não do meu tamanho, mas pensei se ali estava
então tudo era possível, afinal, como seria ser como meu amigo Gulliver, bem
pequenino e me encontrar com gigantes do lado de lá? Pois sim, pois não... a
passei, e o que vi foi um grande tabuleiro de xadrez, com muita mata envolta...
Mal sabia eu, que o tabuleiro era
meu, as peças: só minhas, o jogo: todo meu, entretanto, havia um outro que
jogava comigo, esse outro não era eu..., mas Outro, outro, outro o... Era um
outro... alguém, fato que eu não controlava as outras peças, elas se mexiam sozinhas,
quem as controlava eu não via, mas sentia: o sentia... em mim, nos movimentos
que meu corpo fazia, no controle que me faltava, nos anseios que eu não tinha,
nos medos que me cercavam, os que eu não via, ou não sabia que eles sempre
estavam lá... me esperando de algum lugar...
Neste jogo me vi diante do Rei, e de
costas para a Rainha branca, a rainha má... não sabendo o que fazer, nem para
onde ir, olhei para baixo... para o espaço branco – escuro – vazio – diante de
meus pés... e lá percebi uma toca, não toca de coelho, mas de raposa! Toda raposa
é velha, sábia e atraente... Nunca confie numa raposa! Ou melhor, confie e desconfie
também... Sabe essa história de “você é responsável pelo que cativas...”,
historinha de raposa para manipular o Pequeno Príncipe... mas esse aí todo
mundo engana, não dá para levar em conta.
Bom, em frente à raposa, ela me olha
com olhos de lince – de águia – de pavão... todos focados em mim, na minha
pequena pessoa... Ela fumava uma pipeta, tão fina e longa quanto um sonho
qualquer, de modo que a fumaça não entrava pelas suas narinas, ou focinho...
essa pipeta poderia virar caneta, pincel, cetro, sei lá, qualquer coisa que ela
poderia imaginar-se sendo...
Ela me mostra outro caminho,
galerias imensas pelos fundos, pelo subsolo do jogo, salões empoeirados, abarrotados
de livros: velhos e amarelados, muitos nunca viram a luz do sol, muito menos a do
dia... Pergunto-lhe o que é isso? Ela me aponta para lá... para um espelho de pedras
do outro lado do salão, coberto por musgos antigos, arcaicos, gigantescos,
pré-históricos... e uma lagoa límpida, com aquele ar de sagrado, que cheira a
rosas, como um perfume que me enebria o ar...
A raposa:
— Do lado de lá há o outro...
— Se eu entrar lá, serei eu mesma ou
um outro?
— Nem um nem outro...
— Como assim?
— Alice, aqui não há respostas, pelo
menos aquelas que eu possa te dar, mas há caminhos – processos – reconhecimentos
– portas - fugas – janelas & saídas, bifurcações...
— Todas aqui... todas também lá...
agora: escolha!
Então pus-me a refletir, a pensar,
sentei sobre uma rocha do lago e me olhei na superfície deste... ou seria ali
outro espelho? E o que vi... ou me vi, me fez pensar melhor na minha
trajetória, aquela que me trouxe até ali, até aquela raposa, até aquele buraco
e diante deste espelho... sim! O lago também me reflete, também espelha algo de
mim... o que será que se encontra lá no fundo?
Pois... mergulhei! De roupa e tudo!
Com um supetão me joguei no fundo desse lago, havia muitas pedrinhas
brilhantes, com todas as cores e fogos internos, elas iluminavam o ambiente,
toda a minha escuridão, e me lancei nesse jogo de brilhos e fantasias, luzes,
cores e paetês... mergulhei mais fundo, cada vez mais... fundo. Além do lugar
em que a voz da raposa pudesse me alcançar...
E nesse fundo, nesse espaço de puro
vazio e escuridão... me encontrei com um Outro... O Grande Ó... gosto de chamá-lo
assim, com um acento agudo no Ó! Parece um chapéu – lacinho – gorro – charuto...
chamando-O então falei:
— És Tu aquele habitas nesse Oceano?
Ou é tudo fruto da minha imaginação?
— Se você fruto, eu sou a árvore, se
és semente eu sou o plantio, se és floresta, eu sou o oceano que a circunda,
estou tanto dentro quanto fora, permeio cada célula, cada espaço do teu ventre,
não há nada de ti que escapas de mim... Se és imaginação, então serei eu o que
a crio...
— Não posso vê-lo, só senti-lo...
como se uma corda se esticasse e assim a tocasse – vibrar-se – sentir-se –
realmente: amar-se..., mas tudo isso, não é uma escolha?
— Minha ou sua?
— Nossa...
— Sendo assim Alice, mergulha,
mergulha mais... até que você se encontre com sua canção...
E mergulhei então, percebi um outro
buraco, ou um alçapão embaixo de meus pés, e lá adentrei... sozinha no escuro,
mas engraçado... havia uma velinha comigo, ou um lampião, ou um pequeno
vagalume a me perseguir, ou a me guiar...
E lá criei meu trono, o decorei como
queria, com flores, arandelas, músicas, riachos... lugares, mas me sentia
sozinha, muito só... e me lembrei das portas e janelas e comecei a trazer
outros seres para lá: um homem que fabricava chapéus, e estava descontente, ninguém
o entendia, então o convidei para fabricar todos os chapéus que poderia
imaginar, para quem lá fosse morar... Este homem gostava de tomar chá, então
convidei um outro, especialista em ervas, chás e banhos, e este aceitou minha
proposta, era um ótimo herbalista e gostava também de chás, poderia um fazer
companhia para o outro...
Ele fazia ótimos chás, muito
saborosos, alguns enjoativos, outros... deixa pra lá! Trouxe também seres de
outras galáxias e dimensões, uma centopeia imensa, viciada em haxixe, mas que
possuía muito conhecimento e expressava sabedoria... às vezes...
Mas como percebi depois de algum
tempo... nós não controlamos nada, e nada está sobre o nosso domínio... coisas
começaram a aparecer, as quais não tinha chamado e nem colocado... um gato, ou
duende que aparecia e sumia... sempre me falava coisas ou me admoestava perante
os meus erros... me guiava, mas eu nunca o via...
Coisas que me dão medo, tenebrosas,
começaram a surgir do meu reino, uma rainha má, com um coração de capa... Mãe,
Mãe, Mãe... você por aqui... e ela tinhas guardas, vários guardas a me perseguir
e me ameaçar: “cortem as cabeças”... Que cabeças seriam essas, só poderia ser
só a minha...
Neste reino o Coelho não havia por
ali, pelo menos para mim, o tempo não “se” passava... voava, mas eu não via.
E o medo tornou-se minha
companhia... Um dia, belo ou ruim dia, olho para uma parede, aquele tipo de
parede que não poderia estar por lá... Olho e me lembro de imaginar! Escuto o
duende me dizer: “imagine uma porta e lá estará”. E assim fiz, querendo sair
deste lugar “imaginário”, que eu mesmo criei, me joguei! Atravessei o pântano
de ilusões e do lado de lá estava novamente, naquele vazio, naquela
escuridão...
— Cansou das suas criações?
— Minhas... nada está sob meu
controle... é tudo ilusão ou mentiras...
— Mas parecem reais, não parecem?
— Muito... tão reais que me dão
medo! Me apavoram e me tiram o sono ou prazer de sonhar... quem serei eu nesse
espetáculo todo?
— Você: “aquela que sonha acordado”.
Mas quem disse que todo sonho é mentira, e não realidade?
— Ué?! Você não me disse que vivo no
sonho?
— Não, te disse que você sonha, mas
nem todo sonho é Real, e nem todo: ilusão...
— E como saberei qual é um e qual o Outro?
— Olhe para os pés... o que vê?
— Hmmmm...vejo os meus pés
assentados no chão.
— Ótimo! Então você não está dormindo,
mas sonhando acordada... outros sonham dormindo e nunca acordam, jamais, vivem
em suas prisões na mente, incapazes de abrir uma janela, ou alguma porta,
reféns de seus medos – masmorras – prisões – calabouços... Sobrevivem na
loucura, agarrando-se a outros para sobreviverem assim.
— Então... não estou louca?
— Não... você circula pela borda,
mergulha pelo furo e olha sua imagem refletida no Espelho! Tanto côncavo,
quanto convexo... Tendo se unificado e transcendido a matéria, a ilusão desta:
você pode sonhar e parar de desejar controlar as coisas... Como um Fluxo, o Rio
da Vida, a Vontade Divina (que é a sua, mas não sabe...), um grande Todo, o grande
Ó (como você me chama...).
— Mas se eu voltar para o Real, não
teria envelhecido?
— Sim, você envelheceu, não é mais aquela
menina sonhadora e inocente... essa morreu, se foi, se perdeu num grande sonho
de nunca se sonhar sendo: você! Teus pés estão no chão?
— É... sim... acho que sim... vejo-os
no chão, fixos nele, mergulhados nesse chão... nessa Terra... Mãe Terra que nos
acolheu...
— Hora de mergulhar nele então...
afunde-se nessa terra- nesse barro – nesse chão... a hora Alice: é já.
Pois bem caros leitores, mergulhei-me!
Nesse chão de terra batida... empoeirada e sofrida... adentrei por suas camadas
de barro e me vi num útero materno... novamente... não de mãe! Mas de transformação...
E lá estava uma mulher, toda de branco! A Rainha má, a minha espera... seu
vestido, ou capa, era todo branco reluzente... ela me olha com olhar profundo,
sabedora de toda a minha história, de todo o meu ser... nada escapava daquele
olhar, me lembrei do olhar da raposa, só que essa era ainda mais sincero, mas
vívido, nada dali escapava... então perguntei:
— Quem és tu, toda de branco?
— Hahaha... quem sou eu Alice? Você
me conhece sempre... e aliás, me conhece muito bem.
— Sempre? Bem? Temo ao vê-la...
— Sim... sou a Outra você... além do
Espelho! A vejo por todos os lados e cenários, nada escapa do meu olhar, das
minhas vestes, do meu corpo, do meu sangue, da minha saliva... te imaginei
nascendo, vivendo e morrendo... agora estás aqui, na minha frente...
— Morrendo, então eu morri?
— Não Alice, ainda não é seu lugar,
e nem sua hora. Mas tenho um presente
para lhe dar...
— Se você me imaginou, então é você
que me deseja, ou que deseja os meus desejos, ou que tudo deseja?
— Boa pergunta, eu só desejo..., mas
nada controlo, não tenho controle sobre o resultado destes... quantas vezes
desejei o teu melhor, mas você não se sentiu capaz disso, não se colocou no
lugar certo, não se via tão capaz assim... mas eu desejo... e continuo te
desejando para sempre: o melhor.
— Até que você se torne Eu, e Eu:
você.
— Assim se encerram os Espelhos, não
é?
— Sim, assim se finda um ciclo..., mas
aqui está o teu presente...
Ela me entregou uma flor... um lírio
branco, formato de tulipa, envolto por folhas verdes... seu centro era amarelo –
amarelado – amarelo: Ouro... e brilhava em toda a escuridão que eu sentia, ou
poderia sentir. Sendo assim... renasci.
E realmente, estava velha,
amadurecida, contente... não uma felicidade plena e boba, mas uma alegria
sentida, contida, expressa em cada fibra do meu corpo, em cada célula do meu
ser, meus pés descalços estavam no chão... como Ó me disse, mas agora posso
caminhar contente e espalhar as sementes daquela flor, por onde quer que eu
atravesse ou vá...
— E a raposa?
— Hmmmm... a raposa, você me pergunta...
a raposa vive em mim agora, tendo transcendido meus medos e olhado para os meus
pesadelos, ela não precisa mais viver afastada dentro de uma toca – um buraco...
Ela pode se ver e viver em mim agora...
— E os outros? Do mundo que você
mesmo criou?
— Ah... esses... vivem por si mesmos,
podem decidir sair dali se quiserem, ou ficarem por lá, até aquele mundo
existir, ou eu querer assim imaginar...
— E você? Como fica?
— Ah, agradeço a preocupação comigo,
mas eu fico aqui: com os meus pés no chão! E você? Vive no mundo da lua, ou procura
plantar raízes e fazer sua história? A hora... é sempre: agora.
Hora de despertar...
Acorda!"
Jorge
C. Neves
25/07/2025