quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Um Conto de Desespero

 


Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama,

Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia, solidão e sofrimento...

E eu cedo por seu desejo de recriminar alguém, alguém que seja o Outro, que não seja você...

Você me adora e posso provar, sabe as músicas que mais tocam?

As sofrências sertanejas: o prazer de ter um outro para culpar das tuas dores e tormentos,

Sabe aqueles cantores das antigas? Repletos de músicas de paixões não correspondidas, traições e despedidas...

Tudo desespero, tudo eu, tudo por mim...

Mas não sou feliz assim, poderia eu ser outra coisa se você quisesse, ou desejasse, como diria Lacan,

Mas estou preso a teu desejo de desesperar-se e se lançar em lamúrias sem fim...

Que pena, eu poderia ser: alegria, esperança talvez, não sei...

Você não me permite ser diferente, mas para isso você deveria deixar de me amar,

Assuma-se, olhe a outra face, olhe seus erros e sentimentos mais profundos,

Ache o verdadeiro culpado da tua história, dos teus sofrimentos derradeiros...

Também não me sinto bem em exercer esse papel: Desespero,

Mas como você ainda precisa de mim tanto assim, continuarei desse jeito, até você me assumir,

Assumindo-se então, quebre os muros e cadeados, derrube todos os armários,

E boa sorte no seu aprendizado e autoconhecimento,

Com muito Prazer, do seu terno amigo:

Desespero.

 

Jorge C. Neves

03/09/2025


sexta-feira, 25 de julho de 2025

A Vingança de Alice

 


            “Essa é uma história contada por mim, Alice, e não por um outro que a contou por mim... Assim, esta é a história de quando eu passei por um Espelho, mal sabendo que havia um outro Espelho, um côncavo e o outro convexo...

            Esta história se passa quando eu era apenas uma menina inocente e tola... Bom, tola eu continuo sendo e sempre serei, isto é algo que aprendi com a velha raposa (hahaha...), mas isso é outra história... Só sei que num belo dia atravessei um espelho e assim começa:

         Entre um espelho e outro, há um espaço – cavidade – abrigo... Neste útero sagrado, diríamos assim, é um vácuo entre mundos, os vivos chama de sonho, os mortos de Além... cada um o enxerga de acordo com sua perspectiva, uns têm a vista turva, outros a percepção bem nítida...

            Só sei que enxerguei várias portas, inúmeras delas: grandes e pequenas, tão altas quanto um arranha-céu, ideal para gigantes, e outras bem pequeninas, perfeitas para formigas... me enamorei com uma no chão, bem pequena também, não do meu tamanho, mas pensei se ali estava então tudo era possível, afinal, como seria ser como meu amigo Gulliver, bem pequenino e me encontrar com gigantes do lado de lá? Pois sim, pois não... a passei, e o que vi foi um grande tabuleiro de xadrez, com muita mata envolta...

           Mal sabia eu, que o tabuleiro era meu, as peças: só minhas, o jogo: todo meu, entretanto, havia um outro que jogava comigo, esse outro não era eu..., mas Outro, outro, outro o... Era um outro... alguém, fato que eu não controlava as outras peças, elas se mexiam sozinhas, quem as controlava eu não via, mas sentia: o sentia... em mim, nos movimentos que meu corpo fazia, no controle que me faltava, nos anseios que eu não tinha, nos medos que me cercavam, os que eu não via, ou não sabia que eles sempre estavam lá... me esperando de algum lugar...

        Neste jogo me vi diante do Rei, e de costas para a Rainha branca, a rainha má... não sabendo o que fazer, nem para onde ir, olhei para baixo... para o espaço branco – escuro – vazio – diante de meus pés... e lá percebi uma toca, não toca de coelho, mas de raposa! Toda raposa é velha, sábia e atraente... Nunca confie numa raposa! Ou melhor, confie e desconfie também... Sabe essa história de “você é responsável pelo que cativas...”, historinha de raposa para manipular o Pequeno Príncipe... mas esse aí todo mundo engana, não dá para levar em conta.

           Bom, em frente à raposa, ela me olha com olhos de lince – de águia – de pavão... todos focados em mim, na minha pequena pessoa... Ela fumava uma pipeta, tão fina e longa quanto um sonho qualquer, de modo que a fumaça não entrava pelas suas narinas, ou focinho... essa pipeta poderia virar caneta, pincel, cetro, sei lá, qualquer coisa que ela poderia imaginar-se sendo...

          Ela me mostra outro caminho, galerias imensas pelos fundos, pelo subsolo do jogo, salões empoeirados, abarrotados de livros: velhos e amarelados, muitos nunca viram a luz do sol, muito menos a do dia... Pergunto-lhe o que é isso? Ela me aponta para lá... para um espelho de pedras do outro lado do salão, coberto por musgos antigos, arcaicos, gigantescos, pré-históricos... e uma lagoa límpida, com aquele ar de sagrado, que cheira a rosas, como um perfume que me enebria o ar...

            A raposa:

            — Do lado de lá há o outro...

            — Se eu entrar lá, serei eu mesma ou um outro?

            — Nem um nem outro...

            — Como assim?

           — Alice, aqui não há respostas, pelo menos aquelas que eu possa te dar, mas há caminhos – processos – reconhecimentos – portas - fugas – janelas & saídas, bifurcações...

            — Todas aqui... todas também lá... agora: escolha!

            Então pus-me a refletir, a pensar, sentei sobre uma rocha do lago e me olhei na superfície deste... ou seria ali outro espelho? E o que vi... ou me vi, me fez pensar melhor na minha trajetória, aquela que me trouxe até ali, até aquela raposa, até aquele buraco e diante deste espelho... sim! O lago também me reflete, também espelha algo de mim... o que será que se encontra lá no fundo?

            Pois... mergulhei! De roupa e tudo! Com um supetão me joguei no fundo desse lago, havia muitas pedrinhas brilhantes, com todas as cores e fogos internos, elas iluminavam o ambiente, toda a minha escuridão, e me lancei nesse jogo de brilhos e fantasias, luzes, cores e paetês... mergulhei mais fundo, cada vez mais... fundo. Além do lugar em que a voz da raposa pudesse me alcançar...

            E nesse fundo, nesse espaço de puro vazio e escuridão... me encontrei com um Outro... O Grande Ó... gosto de chamá-lo assim, com um acento agudo no Ó! Parece um chapéu – lacinho – gorro – charuto... chamando-O então falei:

            — És Tu aquele habitas nesse Oceano? Ou é tudo fruto da minha imaginação?

            — Se você fruto, eu sou a árvore, se és semente eu sou o plantio, se és floresta, eu sou o oceano que a circunda, estou tanto dentro quanto fora, permeio cada célula, cada espaço do teu ventre, não há nada de ti que escapas de mim... Se és imaginação, então serei eu o que a crio...

            — Não posso vê-lo, só senti-lo... como se uma corda se esticasse e assim a tocasse – vibrar-se – sentir-se – realmente: amar-se..., mas tudo isso, não é uma escolha?

            — Minha ou sua?

            — Nossa...

            — Sendo assim Alice, mergulha, mergulha mais... até que você se encontre com sua canção...

            E mergulhei então, percebi um outro buraco, ou um alçapão embaixo de meus pés, e lá adentrei... sozinha no escuro, mas engraçado... havia uma velinha comigo, ou um lampião, ou um pequeno vagalume a me perseguir, ou a me guiar...

            E lá criei meu trono, o decorei como queria, com flores, arandelas, músicas, riachos... lugares, mas me sentia sozinha, muito só... e me lembrei das portas e janelas e comecei a trazer outros seres para lá: um homem que fabricava chapéus, e estava descontente, ninguém o entendia, então o convidei para fabricar todos os chapéus que poderia imaginar, para quem lá fosse morar... Este homem gostava de tomar chá, então convidei um outro, especialista em ervas, chás e banhos, e este aceitou minha proposta, era um ótimo herbalista e gostava também de chás, poderia um fazer companhia para o outro...

            Ele fazia ótimos chás, muito saborosos, alguns enjoativos, outros... deixa pra lá! Trouxe também seres de outras galáxias e dimensões, uma centopeia imensa, viciada em haxixe, mas que possuía muito conhecimento e expressava sabedoria... às vezes...

            Mas como percebi depois de algum tempo... nós não controlamos nada, e nada está sobre o nosso domínio... coisas começaram a aparecer, as quais não tinha chamado e nem colocado... um gato, ou duende que aparecia e sumia... sempre me falava coisas ou me admoestava perante os meus erros... me guiava, mas eu nunca o via...

            Coisas que me dão medo, tenebrosas, começaram a surgir do meu reino, uma rainha má, com um coração de capa... Mãe, Mãe, Mãe... você por aqui... e ela tinhas guardas, vários guardas a me perseguir e me ameaçar: “cortem as cabeças”... Que cabeças seriam essas, só poderia ser só a minha...

            Neste reino o Coelho não havia por ali, pelo menos para mim, o tempo não “se” passava... voava, mas eu não via.

            E o medo tornou-se minha companhia... Um dia, belo ou ruim dia, olho para uma parede, aquele tipo de parede que não poderia estar por lá... Olho e me lembro de imaginar! Escuto o duende me dizer: “imagine uma porta e lá estará”. E assim fiz, querendo sair deste lugar “imaginário”, que eu mesmo criei, me joguei! Atravessei o pântano de ilusões e do lado de lá estava novamente, naquele vazio, naquela escuridão...

            — Cansou das suas criações?

            — Minhas... nada está sob meu controle... é tudo ilusão ou mentiras...

            — Mas parecem reais, não parecem?

            — Muito... tão reais que me dão medo! Me apavoram e me tiram o sono ou prazer de sonhar... quem serei eu nesse espetáculo todo?

            — Você: “aquela que sonha acordado”. Mas quem disse que todo sonho é mentira, e não realidade?

            — Ué?! Você não me disse que vivo no sonho?

            — Não, te disse que você sonha, mas nem todo sonho é Real, e nem todo: ilusão...

            — E como saberei qual é um e qual o Outro?

            — Olhe para os pés... o que vê?

            — Hmmmm...vejo os meus pés assentados no chão.

            — Ótimo! Então você não está dormindo, mas sonhando acordada... outros sonham dormindo e nunca acordam, jamais, vivem em suas prisões na mente, incapazes de abrir uma janela, ou alguma porta, reféns de seus medos – masmorras – prisões – calabouços... Sobrevivem na loucura, agarrando-se a outros para sobreviverem assim.

            — Então... não estou louca?

            — Não... você circula pela borda, mergulha pelo furo e olha sua imagem refletida no Espelho! Tanto côncavo, quanto convexo... Tendo se unificado e transcendido a matéria, a ilusão desta: você pode sonhar e parar de desejar controlar as coisas... Como um Fluxo, o Rio da Vida, a Vontade Divina (que é a sua, mas não sabe...), um grande Todo, o grande Ó (como você me chama...).

            — Mas se eu voltar para o Real, não teria envelhecido?

            — Sim, você envelheceu, não é mais aquela menina sonhadora e inocente... essa morreu, se foi, se perdeu num grande sonho de nunca se sonhar sendo: você! Teus pés estão no chão?

            — É... sim... acho que sim... vejo-os no chão, fixos nele, mergulhados nesse chão... nessa Terra... Mãe Terra que nos acolheu...

            — Hora de mergulhar nele então... afunde-se nessa terra- nesse barro – nesse chão... a hora Alice: é já.

            Pois bem caros leitores, mergulhei-me! Nesse chão de terra batida... empoeirada e sofrida... adentrei por suas camadas de barro e me vi num útero materno... novamente... não de mãe! Mas de transformação... E lá estava uma mulher, toda de branco! A Rainha má, a minha espera... seu vestido, ou capa, era todo branco reluzente... ela me olha com olhar profundo, sabedora de toda a minha história, de todo o meu ser... nada escapava daquele olhar, me lembrei do olhar da raposa, só que essa era ainda mais sincero, mas vívido, nada dali escapava... então perguntei:

            — Quem és tu, toda de branco?

            — Hahaha... quem sou eu Alice? Você me conhece sempre... e aliás, me conhece muito bem.

            — Sempre? Bem? Temo ao vê-la...

            — Sim... sou a Outra você... além do Espelho! A vejo por todos os lados e cenários, nada escapa do meu olhar, das minhas vestes, do meu corpo, do meu sangue, da minha saliva... te imaginei nascendo, vivendo e morrendo... agora estás aqui, na minha frente...

            — Morrendo, então eu morri?

            — Não Alice, ainda não é seu lugar, e nem sua hora.  Mas tenho um presente para lhe dar...

            — Se você me imaginou, então é você que me deseja, ou que deseja os meus desejos, ou que tudo deseja?

            — Boa pergunta, eu só desejo..., mas nada controlo, não tenho controle sobre o resultado destes... quantas vezes desejei o teu melhor, mas você não se sentiu capaz disso, não se colocou no lugar certo, não se via tão capaz assim... mas eu desejo... e continuo te desejando para sempre: o melhor.

            — Até que você se torne Eu, e Eu: você.

            — Assim se encerram os Espelhos, não é?

            — Sim, assim se finda um ciclo..., mas aqui está o teu presente...

            Ela me entregou uma flor... um lírio branco, formato de tulipa, envolto por folhas verdes... seu centro era amarelo – amarelado – amarelo: Ouro... e brilhava em toda a escuridão que eu sentia, ou poderia sentir. Sendo assim... renasci.

            E realmente, estava velha, amadurecida, contente... não uma felicidade plena e boba, mas uma alegria sentida, contida, expressa em cada fibra do meu corpo, em cada célula do meu ser, meus pés descalços estavam no chão... como Ó me disse, mas agora posso caminhar contente e espalhar as sementes daquela flor, por onde quer que eu atravesse ou vá...

            — E a raposa?

     — Hmmmm... a raposa, você me pergunta... a raposa vive em mim agora, tendo transcendido meus medos e olhado para os meus pesadelos, ela não precisa mais viver afastada dentro de uma toca – um buraco... Ela pode se ver e viver em mim agora...

            — E os outros? Do mundo que você mesmo criou?

            — Ah... esses... vivem por si mesmos, podem decidir sair dali se quiserem, ou ficarem por lá, até aquele mundo existir, ou eu querer assim imaginar...

            — E você? Como fica?

            — Ah, agradeço a preocupação comigo, mas eu fico aqui: com os meus pés no chão! E você? Vive no mundo da lua, ou procura plantar raízes e fazer sua história? A hora... é sempre: agora.

            Hora de despertar...

Acorda!"

 

Jorge C. Neves

25/07/2025

 


terça-feira, 24 de junho de 2025

Viva Dada

 

                Dadaísmo: movimento artístico que proclamava o caos como estética, e o não-significado como não-herança simbólica...  e quando tudo já tinha desmoronado, tudo parecia estar morto... olha lá! Lá vem Dada... é de lá dada... é de lá.

                Chego à conclusão que adentramos em uma sociedade dadaísta, os muros simbólicos que nos restavam como arma, como segurança, equilíbrio e afeto... desmoronam-se a olhos vistos, estes que a terra não há de comê-los, pois se camelos fossem: não restaria visão...

                E onde o significante vira pasto, o sig-nific... sig-ni... sg| Caiu... tudo cai, caiu... balão caiu, balão. Tudo morre nestas terras estranhas de Dada... o ser se desinsignifica... se torce-destorce numa diz-torção forçada, enérgica e tonturante/torturante, e quem paga a conta? O último que paga já morreu... disse a letra de uma canção: quem foi? Quem é o descantô?

                É o desencanto com a vida, com o sentido que se tinha dela, com o mundo, o que nos abrigava com os pequenos afetos ao redor (nosso pequeno mundo), ou com o Outro: grandão, gigante, eterno, colosso... desigual. Sem mais sonhos aqui, só dadacaos, dadaritmo, dadacrédito... da-da.

                É pelos apelos de Dada que segue essa sinto-nímia desvairada, desvirtuada, desvitalizada, des-mem-bra-da...da. E onde está o rei, o conserto? Concerto? Só de Dalí!

                É a capivara que é eleita símbolo nacional, mundial, geral... a pobre da capivara, que vivia sua vida pacata numa boa... vira símbolo de Dada! A rainha nacional de festa alguma do non-sense... É símbolo de produto, de cidade, de nação, de gente descapivarada... é cafeteria japonesa com capivara pulando na mesa, cagando no chão... é transfigurada em pet de gente chique chinesa, com coleiras douradas, de suntuosa aquisição (aqui é rei capivara oxe...).

                Bom, é dada... e agora? Quem nos livra da desgraça metonímica de capivaras transmorsas que deitam na praia, e rolam pelo chão? Aonde há neve, fogo não há... só discórdia dele, ou delx...

 De-le-te.

 

Jorge C. Neves

(não dadaísta! Sim: surrealista)

24/06/25


sexta-feira, 20 de junho de 2025

O Broto

 



“É” os olhos que enxergam a Vida…

 Ou a Morte que nos rege-segue e nos impede de olhar o imperecível que habita em 🪢 nós…

É pelos olhos da decência que me encontro… 
Ou é pelo desencontro com os olhos que já se foram: já morreu…
Dizem que: “vi com esses olhos que a terra há de comer…” -
Mas há terra que nos come? 
Essa terra-mãe há de ter boca, saliva, bílis, estômago, ácido, refluxo? 
É essa mãe devoradora que nos come o imperecível: o cadáver, os restos e as sobras? Até o osso, até o pó, até virar húmus de minhoca… 
Pois, se assim é… então, que essa mãe me vomite! 
Estabeleço minha vingança como broto! 
Sim, broto! 
Aquele que vinga, se enraíza nas profundezas dessa corpo e brota! 
Brota pelo umbigo desse corpo, para a luz, para o sol e para o Céu…
Como um eterno ciclo de idas e vindas, passagens e retornos, diga ao céu: 
Que eu broto.

Jorge C. Neves
20/06/25

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Meu amigo Charlie

 


                Ehhh... meu amigo Chá... Charlie Brown fez 75 anos de história, talvez tenha sempre tido esta idade no desenho, Charlie não era criança, na mentalidade, nem adulto, muito menos idoso, Charlie era alma pensante dentro de um mundo robótico, preenchido por vozes distorcidas e murmurantes, sem face, sem cor, que nada faziam... E se, no fundo, Charlie Brown era um mapa mental de alguém? Fruto de uma imagem lúdica de como a psiquê se vê, ou se organiza, diante de um caos des-organizado que procura sentido, que está atrás de amor?

                Charlie, assim como um filósofo ateniense, vivia em profunda reflexão diante do sentido do mundo: sou real, ou personagem de um desenho animado? Era Sócrates em seus infinitos questionamentos, era Aristóteles em seu modo peripatético de filosofar... era Zenão e vivia no pórtico da vida, com medo de arriscar, estava sempre caminhando, sempre se questionando. Enquanto os outros personagens eram fixos, repetitivos, só ato, nenhuma reflexão; assim como os npc de hoje, só uma forma autômata de existir, cada qual uma peça discordante de você... Charlie Brown.

                Havia Lucy, a egocêntrica e narcísica, que sempre frustrava as expectativas e tentativas de Charlie, Linus aquele que não cresceu e andava de lá para cá com um cobertor de orelha, ou na orelha... assim como Charlie caminhava filosofando, Linus caminhava sem expectativa de nada, um dedo na boca, sem preocupação... Schroeder, o pianista, com seu piano “imaginário”, tocava, tocava e tocava, mesmo se destruíssem seu instrumento, ali, de repente, surgia outro, sempre olhando para baixo, para as mãos , para um nada... enquanto Lucy se espreguiçava em cima de seu instrumento, buscando uma face, atrás de um olhar, que ela nunca tinha... Havia Snoopy, o alter ego de Charlie, sua função imaginativa em ação, tudo aquilo que Charlie não podia, Snoopy fazia... voava em sua casinha de cachorro, atirava em inimigos do ar, jogava tênis, jogava tudo... não falava, fazia.

                Snoopy tinha outro amigo imaginário (?)... Woodpecker, um pássaro amarelo que lhe fazia companhia, seria a alma a companheira imaginária de Snoopy, ou tudo aquilo que Charlie era, e não conseguia visualizar, ser, tentar? Este pássaro dourado trazia a simbologia da morte, a certeza da vida, assim como Snoopy dormia, deitava sobre a cumeeira de sua casa; cumeeira é o ápice do telhado, neste ponto Snoopy adormecia, assim como Osíris na tumba, seu corpo recomposto por Ísis, menos o falo, que se perdeu... ou se transformou em Woodpecker e o acompanha de outra maneira?

                Ah, então seria Charlie psicótico e vive com amigos imaginários e um cachorro que voa? Diriam alguns, não! Charlie vê o outro, aliás, o único que se interessa realmente por alguém, ali é Charlie... Seus professores, os adultos, são só vozes murmurantes, como bebês que resmungam e choram, não há corpos nem faces, só pés, o olhar de Charlie e sua turma, é todo voltado ao alto, ao inacessível, ao desconhecido, estranho, e ininteligível... ninguém sabe o que querem... deles, Charlie nada pode esperar, entender ou mesmo, pedir...

                Charlie é uma sombra que se arrasta pedindo auxílio, compreensão e sentido... seria o Self junguiano tentando se recompor, se re-encontrar? Seus planos eram sempre frustrados, Charlie não vivia uma expectativa positiva, seus dias eram de fracasso e tristeza, a qual era sempre sublimada por seu espírito compassivo, penetrante, especulativo diante da miséria emocional dos outros, que nada viam, nada sabiam, estavam presos em um ciclo infernal de faça, faça aquilo, seja algo, seja alguém, não seja.

                Tem um episódio em que Charlie quase conseguiu, quase alcançou o topo de ser visto e admirado por todos, era um jogo de futebol americano, Charlie era o dono da bola, aquele que iria fazer o tal gol, o da vitória sobre os reles mortais da inexistência, o jogo estava ganho, estava na mão... ele iria chutar a bola, e Lucy a separa, retira, corta... Charlie cai ao chão... não há mais nada e nem ninguém, todos se vão, fica Charlie... no chão. Contente? Não, mas Charlie não desiste, continua, segue, se levanta, se recompõe e age: assim como um pássaro, Woodpecker abre suas asas e voa, acima da matéria do mundo, dentro da casa, por dentro do coração.

Obs.: em um episódio simbólico, todos entram na pequena casinha de cachorro do Snoopy (Charlie? É você?) ... tudo é grande, imenso, colossal, salões e escadarias, quadros, um museu... memórias, lembranças, arrependimentos... há tudo ali, tudo guardado, tudo rompido, será que por isso Snoopy, geralmente, dormia lá fora, em cima da casa, longe da entrada da alma, do altar do coração?

                Se você for Charlie, arrisque-se a entrar na casa, na pequena casinha, há espaço, e muito! Muito espaço, há um lar de volta para ti, basta olhar, romper a tristeza que te afasta de si e adentrar em tudo aquilo que escondes de si mesmo e que necessita vir à tona, para fora da escuridão... revele-se:

         Charlie Brown.

 

Jorge C. Neves

05/06/2025


quarta-feira, 21 de maio de 2025

O Escafandro de Carne

         


         O que é um escafandro? Para quem não sabe, é o primórdio da roupa de mergulho, seria mais uma armadura medieval repleta de ferro e chumbo, pesada e que afunda que nem pedra... Seu único contato com o mundo externo – exterior, ou mesmo o dito mundo de cima, é por um tubo ligado ao seu capacete, na parte superior, por onde o oxigênio é bombeado e mantém o indivíduo respirando.

 Há uma expressão, já em desuso: “o escafandro de carne”; a qual remete a sintonia e separação entre corpo e alma (espírito), o dualismo socrático e platônico no qual a alma está no corpo (escafandro), mas a este não pertence (mundo das ideias); estaríamos todos então encarcerados – encarnados em um escafandro pesado, que nos prende à terra, ao mesmo tempo que nos encarcera na vida, em nossa atual existência. Todos estaríamos “respirando” e conectados por um tubo, no topo da nossa consciência, ou cabeça (sahasrara), que proporciona o contato com o oxigênio divino, fonte de nossa sabedoria e fé; posto que é nos impossibilitado enxergar esse tubo, pois, por mais que possamos mover a cabeça de um lado para o outro, não temos acesso (dentro do escafandro) à essa visão superior, precisamos crer que ela está aí e, mais do que isso, senti-la.

    Me lembro de conhecer a função do escafandro por um desenho animado do Popeye, no qual ele se veste de um escafandro e desce, se joga, no fundo do mar para buscar alguma coisa, se não me engano uma lata de espinafre, ou coisa assim. O fato é que para descer e mergulhar na matéria densa, assim como para descer e mergulhar nas profundezas do inconsciente é preciso de coragem... O sujeito que utilizava um escafandro para mergulho tinha uma dose de coragem, mas acredito que também uma dose de loucura, porque a probabilidade de algo sair fora do controle era grande e pesada.

     O escafandro é o que possibilita caminhar nas profundezas do mar como se estivesse caminhando na terra, é o contato primordial com o solo arenoso, ou pedregoso, das profundezas marítimas, das fossas abissais. Aquele que mergulha nas profundezas do inconsciente precisa suportar pressões elevadas de formas arquetípicas, de estruturas benéficas e maléficas, boas ou ruins, apesar dessa identificação não fazer sentido nessas profundezas onde o um e o zero estão contidos em si, desidentificados.

    Mas, aquele que tem coragem e suporta a pressão inconsciencial da forma e da não-forma, pode caminhar pelo solo primordial da Mãe-Terra, ou pelo menos, se arrastar por ali, e reencontrar-se com uma porta, uma saída... Nas profundezas do “Oceano sem fim”, há uma luz branca que cega, ao entrar em contato com esta há de se deparar com o espelho invertido: a face do Outro – do outro Eu. E nesse momento de (re)encontro, o 2 torna-se 1 novamente...

    Se revestir de um escafandro, da armadura de concreto (o Real da vida), nos possibilita caminhar por lugares ainda desconhecidos, afinal, o que é a vida? E acima de tudo, nos fornece a chave de compreender não o que eu faço por aqui, mas sim, o que é que eu possa fazer? Para quê serei útil? Não sabe ainda responder essas questões? Não se preocupe, caminha! Continue caminhando que há alguém lá em cima bombeando luz e oxigênio para dentro desta cabeça, desta mente, deste Ser: ouse-se Ser!


Jorge C. Neves

21/05/25

domingo, 6 de abril de 2025

A Navalha do Corte, ou Corte da Navalha

 


         Seria o corte da navalha suficiente para separar-se do Pai, o tal da Lei? Ou seria a navalha, instrumento estético masculino, o falo ereto que cortaria a dependência imagética da mulher?

         Seriam ambos instrumentos, forças que se coadunam em sentido de separar-se Ser! Ser no sentido mais “robusto” da palavra, aquela palavra contida no âmago deste... aquele que necessita de uma força, um amparo, um empurrão que seja, que o levaria a (re)encontrar-se consigo, com o Self.

           A navalha como imagem simbólica – simbiótica da passagem, da emancipação da mulher do seio materno-menina; o que seria isso, o primeiro corte é aquele que nos faz gente, que nos castra do seio materno, da ligação unilateral entre o filho e a Mãe, a grande mãe que engloba a tudo e não nos permite ver-nos seres em si separados da fonte primordial e materna. A mulher tem dois cortes, um de nascença, e outro que ela mesmo fará, se puder e ansiar separar-se do Pai, o ser supremo por ela idealizado, o qual a impede de se ver livre e bem com outro alguém.

         Há uma marcha, um símbolo de emancipação feminina com a tal da revolta do cigarro; a qual só serviu como propaganda para a indústria de tabaco que queria expandir seu consumo às mulheres, e no fundo era só um pequeno falo aceso na boca destas... No entanto, e se fossem navalhas? As navalhas abertas, instrumentos dos barbeiros da época, por posse dessas mulheres que se serviam como corte, o corte do fio da barba do pai (nessa época muitos homens usavam barba); talvez virasse uma carnificina na época, não sei...

         Mas o fato é que a navalha corta, rente, precisa, deixando apenas os poros abertos como se algo estivesse antes por ali, e ninguém mais se deu conta, ou viu. Toda mulher sofre, assim como o humano, há uma dor, um sofrimento contido, existe o corte original, mas há um outro que ela mesmo amputa, ou deveria, tornando-a mulher e livre... Mas essa dor que oculta o caráter violento da navalha, do corte em si, da autonomia em poder fazer-se (ser) autora do ato, que a configura como ser separado da matriz materna, da mãe opressora, e torná-la aquilo que é, sem mais os ditames do pai, ou da sociedade que a coaduna e também a bajula, de uma forma ou de outra, é viver sem os penduricalhos sociais que a enfeitam e, ao mesmo tempo, restringem.

         “Toda mulher é um corte”, seria esse Corte, força suficiente para que ela se almeje independente das forças que aí estão? Caberá a ela a marcha de sua libertação, se ela puder, se ela quiser: Ousar.


Jorge C. Neves

06/04/2025

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...