Seja a Alma ou o inconsciente... O fato é que nós carregamos um saco grande e pesado, cheio de ideias e coisas agradáveis ou não, nossa Alma é um poço vazio e escuro, ao mesmo tempo cheio, fervilhando de princípios dissociativos, criativos, irracionais e temáticos, prontos a explodir ou serem direcionados, depende de seu condutor, é a Alma de quem o conduz que traz o princípio de prazer ou de dor, de sofrimento ou de crescimento, da vitória da luz ou da derrota na escuridão; fora destes princípios antagônicos se encontra o Eu, esperando ser autor ou prestes a ser engolido e dissociado sim, de seu protagonismo de ser, fazer e viver, sorrir e morrer...
Por que não é só de vida que a Alma sobrevive, mas de ciclos de morte e renascimento, de viver e morrer, dias sim e dias não; às vezes há mais nãos do que sim, mas quem disse que não existe beleza na tristeza, e luz em processos de dor? Para muitos são nos momentos secos e áridos, tristes diria assim, que se encontra um Farol, uma corda, um puxão ou empurrão para uma porta de saída, uma nova porta ou caminho que leve à redenção, à compreensão, ao Amor.
Então se é você um destes “escolhidos a sofrer”, vamos dizer assim, pois na verdade não há escolhidos mas passageiros de pequenos momentos necessários a catarse íntima ou limpeza necessária do momentos sombrios de outrora, ou da retirada do pus anímico que teima em continuar a escorrer e escorrer... Não se desespere então pois ajuda sempre há, sempre encontra ou é encontrado, mas não fuja do propósito, não esconda suas chagas de si mesmo, “bora” trabalhar o apego da dor, do sofrimento, entrar na ferida aberta, purulenta e comida... Trabalhar os nós e aspectos do passado que impulsionam as nossas mentiras, ao mesmo tempo que trazem as nossas verdades. Embora mergulhar no vazio supremo, ou na ausência da dor, ou no inconsciente coletivo ou pessoal – tal não importa, o todo é um só.
Voltando ao tópico, seja alma ou inconsciente... É aí que se encontra a chave, a porta para a “cura”, o entendimento, a libertação, é aí que estão as maiores verdades, ou conflitos profundos, os grandes prazeres e terríveis conflitos, está tudo aí – recalcado, armazenado, corrompido, transfigurado, abstraído, compensando... – tudo aí à disposição de quem mergulha e não teme a dor do processo, o encontro com as sombras, o despertar do vazio, a lutas com as feras, o encontro com o macabro de si – está tudo aí.
Em nossa história, desde a busca por este fogo, esta chama, desde a antiguidade e em nossa história contemporânea, com o surgimento de figuras que se embrenharam por esta mata escura e de difícil acesso: como Freud com a hipnose como uma porta e após com a associação livre: “fala, fala, fala tudo que vem na cabeça sem pensar...”, como um caminho para o que se esconde, o que se recalca; Jung com a arte, com as mandalas, com os arquétipos, dando voz aos personagens inconscientes; à Lacan e sua rebeldia linguística, criando uma linguagem abstrata e um outro caminho para ser percorrido; e tantos outros artistas e intelectuais que tentaram pelo menos compreender como funciona este mundo onírico e oculto debaixo de nossos pés, ou dentro de nossa Alma.
Há tantos artistas que desnudaram as faces do inconsciente de alguma forma, desde movimentos como a Art Noveau, depois o Surrealismo com a porta da alma escancarada, a arte psicodélica em geral; e outras formas de arte que brincam com esta energia e possibilidade. Mas não basta mostrar o inconsciente, e não adianta compreendê-lo de forma lógica e racional como observamos, mas é preciso percorrê-lo e transformá-lo, mexer em suas estruturas primordiais de forma correta, com respeito, pois o inconsciente é vivo e consciente de si, conhece suas manobras e sabe fazê-lo de trouxa se preciso for.
O inconsciente é o grande bufão, o louco das cartas do tarô, ou aquele maluco que anda por aí – de lá para cá, o inconsciente desconhece as tuas normas pré-concebidas e tuas regras limitantes, ele escancara as possibilidades e te joga em uma aventura sem fim...
Quando Desenho com a Alma, seja comigo ou com meus pacientes, busco transcender estas estruturas já posicionadas, abrir novas janelas e oportunidades, trazer a luz para os espaços escuros, sombrios e sem vida recalcados ali dentro, como um caldeirão alquímico mexo na base destas formas arquetípicas ou não – pois há muita e muita coisa aí dentro – para que o novo saia para fora, para que uma mudança possa ser estabelecida, para que o lá fora possa estar colocado em um novo ponto, em outro trajeto. Tudo isto leva a mudanças, mas também podem surgir dor, medo e desconfiança, as energias liberadas que são vistas, que são compreendidas assim como elas são e após integradas; ou as sombras abraçadas e aceitas, pois não dá para fugir da própria escuridão, ela é sua, aceite-a...
Seja Alma ou Inconsciente, é seu, hora de abraça-los por inteiro, sentir a angústia se dissolver em seu peito, acalentar a dor e vazio para que o novo daí ressurja, como a fênix que brota do ovo cósmico interior queimando em sua passagem o velho, o passado, para que este novo surja e ressurja trazendo a esperança de um Eu melhor, mais amado, mais abraçado, mais Eu – Ser – Eu.
Jorge C. Neves