sábado, 14 de setembro de 2024

Dai de graça o que é de graça, se de graça um dia fosse

 


A única Graça que existe é a de Deus, o restante é farofa jogada na mesa…
Há uma Lei tecidual que percorre a tudo e a todos, permeia todo o Universo e tudo aquilo que puderes imaginar, essa Lei é a que diz que em tudo há de haver uma troca, desde o micro ao macro, do alto ao baixo, cada célula de seu corpo a conhece: você inspira oxigênio e libera gás carbônico, há troca constante de fluídos corporais, cada batida do coração é um movimento continuo de perguntas e respostas, toda transmigração de corpo, do sólido, líquido ao gasoso, há trocas de energia, temperatura e pressão, toda poeira cósmica, radiação solar, movimento de estrelas, passagem de um buraco negro ao seu oposto branco, nada foge dessa Lei e nunca fugirá. Se nesse instante, no agora, uma formiga em sua colônia fizesse algo realmente de graça, tudo se destruiria, todo o tecido se desintegraria nesse momento.
Há que se aprender a dar(se) - doar(se) - amar(se)… a compartilhar e compartilhar-se 🌟 No entanto, o que mais há, são aqueles de roupas externas bonitas, caros sapatos e bolsas “de fora”, que desfilam de lá para cá, vão em espaços e espaços, centros em centros, demandam passes e passes, auxílios e ajudas, acreditam em suas soberbas que sua presença “ilustre” é uma espécie de honra em tais lugares, sempre com a máxima: “o Universo que cuida, afinal eu sou um ser muito especial…” “Não há aviso algum aqui, sendo assim minha presença é suficiente.”
Almas de barro com seu cheiro fétido de pedinte, um andarilho batendo de porta em porta, como os fariseus e saduceus que batem na porta do Templo, enquanto os sacerdotes em seus tronos dourados jogam migalhas à seus pés.
Não há oferta que não será devidamente paga, dívida que não será quitada, crédito e débito que serão zerados, cobrador e credor que se reconciliarão, tal é a Lei que nada e ninguém escapa.
E me pergunto: quando essa miséria humana acabará? E escuto: há cegos que fingem não ver, mancos fingindo não andar, surdos que fingem não ouvir, esses sabem o que fazem, enquanto cegos guiarem cegos, ninguém despertará para a Verdade que não desejam repartir…
Oremos…


Jorge C. Neves

14/09/24

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Deusa dá Vida


 

Coatlicue

Deusa da Morte, Deusa da Vida,

Interseccione nossos Caminhos

Com Vossa Vontade,

Limpe os traços lodosos e dolorosos

De nossos passados ancestrais,

Libertando nossa Alma

Do vazio de nossos mundos internos,

E dos becos sem saída que nos embreamos sempre,

Nos conduza através de suas mãos

E pela força de toda ondulação nos empurre além-Mar,

Para que nossos anseios sejam despertos,

Nossa Alma purificada,

E nossa vontade nos conduza a Ti,

novamente,

Antes dos adventos dos Céus

E das trevas da Terra.

Que assim seja Mãe!

Que assim seja.”


Jorge C. Neves


sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Mulheres de Areia


Para quem viu a novela, eu assisti na época, mas estava passando a reprise a poucos meses atrás e resolvi fazer uma análise desta obra televisiva:

Rutinha é Raquel,

Raquel é Rutinha,

Só o Tonho é da Lua,

Só ele vê as duas,

Se fossem duas,

Raquel já teria matado Rutinha,

E Tonho deixaria de ser da Lua,

E seu Donato perceberia que ele é o Tonho, da Lua,

Então Donato é na verdade o Boto, o da Lua,

E as mulheres de areia é um desejo de procriação do Boto, o Rosa, o da Lua,

E devido a doutrinações dogmáticas cristãs,

O Boto deixou de ser o da Lua,

Abandonou sua Mãe, o Mar,

Envelheceu e se tornou o seu Donato,

Cheio de culpas, desejos e recriminações,

Vive fantasiando mulheres de areia, Tonhos da Lua, Raquéis e Rutinhas…

P.S.: provavelmente a ruptura do Boto veio com aquela paixão proibida no passado (o sorriso do lagarto), tendo na verdade rompido com sua estrutura marinha e se tornado um ser humano triste, rancoroso, medroso, sozinho e vazio.

#choraboto


Jorge C. Neves

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Os Anjos Pendurados no Ar


 

Hoje os anjos estão assim,

Pregados na altura, em um plástico hermeticamente fechado à vácuo,

Não sorriem mais, se prestam somente a espiar os outros,

Por meio de suas poses incertas, suas caras e bocas meio obscenas,

Seus olhos: vazio,

Nem rugas e o passar do tempo por sobre suas frondes intactas,

Os cabelos encaracolados continuam por lá, impassíveis e eternos…

Como um anjo caído, segurado por um prego na parede,

Ou no alto de um batente qualquer,

Cai anjo daí! Pelo menos espatife-se no chão e espalhe sua dor por todos os lados,

Para que todos ouçam seus lamentos, cantem suas pitangas e dancem, dancem sem parar,

Que de loucuras os anjos entendem aquilo que o humano só pode sonhar,

Sonho meu…

Sonho teu.


Jorge C. Neves

05/09/24

Seja Alma ou Inconsciente


 

Seja a Alma ou o inconsciente... O fato é que nós carregamos um saco grande e pesado, cheio de ideias e coisas agradáveis ou não, nossa Alma é um poço vazio e escuro, ao mesmo tempo cheio, fervilhando de princípios dissociativos, criativos, irracionais e temáticos, prontos a explodir ou serem direcionados, depende de seu condutor, é a Alma de quem o conduz que traz o princípio de prazer ou de dor, de sofrimento ou de crescimento, da vitória da luz ou da derrota na escuridão; fora destes princípios antagônicos se encontra o Eu, esperando ser autor ou prestes a ser engolido e dissociado sim, de seu protagonismo de ser, fazer e viver, sorrir e morrer...

Por que não é só de vida que a Alma sobrevive, mas de ciclos de morte e renascimento, de viver e morrer, dias sim e dias não; às vezes há mais nãos do que sim, mas quem disse que não existe beleza na tristeza, e luz em processos de dor? Para muitos são nos momentos secos e áridos, tristes diria assim, que se encontra um Farol, uma corda, um puxão ou empurrão para uma porta de saída, uma nova porta ou caminho que leve à redenção, à compreensão, ao Amor.

Então se é você um destes “escolhidos a sofrer”, vamos dizer assim, pois na verdade não há escolhidos mas passageiros de pequenos momentos necessários a catarse íntima ou limpeza necessária do momentos sombrios de outrora, ou da retirada do pus anímico que teima em continuar a escorrer e escorrer... Não se desespere então pois ajuda sempre há, sempre encontra ou é encontrado, mas não fuja do propósito, não esconda suas chagas de si mesmo, “bora” trabalhar o apego da dor, do sofrimento, entrar na ferida aberta, purulenta e comida... Trabalhar os nós e aspectos do passado que impulsionam as nossas mentiras, ao mesmo tempo que trazem as nossas verdades. Embora mergulhar no vazio supremo, ou na ausência da dor, ou no inconsciente coletivo ou pessoal – tal não importa, o todo é um só.

Voltando ao tópico, seja alma ou inconsciente... É aí que se encontra a chave, a porta para a “cura”, o entendimento, a libertação, é aí que estão as maiores verdades, ou conflitos profundos, os grandes prazeres e terríveis conflitos, está tudo aí – recalcado, armazenado, corrompido, transfigurado, abstraído, compensando... – tudo aí à disposição de quem mergulha e não teme a dor do processo, o encontro com as sombras, o despertar do vazio, a lutas com as feras, o encontro com o macabro de si – está tudo aí.

Em nossa história, desde a busca por este fogo, esta chama, desde a antiguidade e em nossa história contemporânea, com o surgimento de figuras que se embrenharam por esta mata escura e de difícil acesso: como Freud com a hipnose como uma porta e após com a associação livre: “fala, fala, fala tudo que vem na cabeça sem pensar...”, como um caminho para o que se esconde, o que se recalca; Jung com a arte, com as mandalas, com os arquétipos, dando voz aos personagens inconscientes; à Lacan e sua rebeldia linguística, criando uma linguagem abstrata e um outro caminho para ser percorrido; e tantos outros artistas e intelectuais que tentaram pelo menos compreender como funciona este mundo onírico e oculto debaixo de nossos pés, ou dentro de nossa Alma.

Há tantos artistas que desnudaram as faces do inconsciente de alguma forma, desde movimentos como a Art Noveau, depois o Surrealismo com a porta da alma escancarada, a arte psicodélica em geral; e outras formas de arte que brincam com esta energia e possibilidade. Mas não basta mostrar o inconsciente, e não adianta compreendê-lo de forma lógica e racional como observamos, mas é preciso percorrê-lo e transformá-lo, mexer em suas estruturas primordiais de forma correta, com respeito, pois o inconsciente é vivo e consciente de si, conhece suas manobras e sabe fazê-lo de trouxa se preciso for.

O inconsciente é o grande bufão, o louco das cartas do tarô, ou aquele maluco que anda por aí – de lá para cá, o inconsciente desconhece as tuas normas pré-concebidas e tuas regras limitantes, ele escancara as possibilidades e te joga em uma aventura sem fim...

Quando Desenho com a Alma, seja comigo ou com meus pacientes, busco transcender estas estruturas já posicionadas, abrir novas janelas e oportunidades, trazer a luz para os espaços escuros, sombrios e sem vida recalcados ali dentro, como um caldeirão alquímico mexo na base destas formas arquetípicas ou não – pois há muita e muita coisa aí dentro – para que o novo saia para fora, para que uma mudança possa ser estabelecida, para que o lá fora possa estar colocado em um novo ponto, em outro trajeto. Tudo isto leva a mudanças, mas também podem surgir dor, medo e desconfiança, as energias liberadas que são vistas, que são compreendidas assim como elas são e após integradas; ou as sombras abraçadas e aceitas, pois não dá para fugir da própria escuridão, ela é sua, aceite-a...

Seja Alma ou Inconsciente, é seu, hora de abraça-los por inteiro, sentir a angústia se dissolver em seu peito, acalentar a dor e vazio para que o novo daí ressurja, como a fênix que brota do ovo cósmico interior queimando em sua passagem o velho, o passado, para que este novo surja e ressurja trazendo a esperança de um Eu melhor, mais amado, mais abraçado, mais Eu – Ser – Eu.


Jorge C. Neves

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

A Morte


 

"Culpados! Culpados! Culpados…

Culpados de Viver!

- E qual é a sentença???

Que cada um carregue o seu!

Que andem pelos caminhos de pedras agudas que machucam, pelos caminhos de terra fofa e pastos verdejantes que suavizam os passos dolorosos, pelo chão de terra quente e seca, que caleja, engrossa e resiste as intempéries do frio rigoroso, do gelo sem fim.

Que cada um transforme a pedra em ouro, não no ouro de tolo, no vil metal, mas no ouro da transformação consciencial, no novo homem Real!

Renascido do ferro, da forja e do barro… do lodo da inconsciência e da burrice, ao Ser translúcido pleno de espírito e de paz…

Que renasçam cada um, vezes sem fim para isso:

Que cada um semeie e colha o que plantou, se espinhos - espinhos, se flor - Amor…

Que cada um Seja!

Sempre no caminho do Ser, e menos do ter…

Que cada um se veja no outro, nos reflexos que não suporta encontrar em si…

Que cada um seja Presença e menos ausência,

E quando o veredito chegar e a dona Morte aparecer,

Sim, um dia ela virá! Com seu manto escuro escarlate, com toda pompa e circunstância, e ela te apontará:

Culpado! Sim, culpado de Viver! Este não morreu em Vida, mas viveu à própria sorte.

No mar de infinitas possibilidades, se encontrou! Reencontrou-se com o Ser e Consigo!

Ela me encontrará com um sorriso no rosto, dos que nada tem a dizer, e Ela falará assim:

- Ahhh, é só um parto! É sempre assim…”


A Morte

#partidasechegadas

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O ser subjetivo em uma sociedade que se consome


 

Cada vez mais caminhamos para uma total insignificância perante nossa individualidade humana, o ser humano integral tornando-se subjetivo perante uma sociedade que destrói o significante, o simbólico e todos os agregados diante de uma ânsia compulsiva em autofagia, o canibalismo puro da essência em troca do absoluto nada.

Somos seres simbólicos, necessitamos de significado, sensação e sentimento de pertencer ao mundo, ao todo, a realidade ao redor, seja de forma individual ou em conjunto – comunidade – cooperação; entretanto, perante uma realidade compulsiva em criar consumo absoluto sobre tudo e sobre todos, tornamo-nos cada vez mais obsoletos, vazios e inúteis, pois toda a “carga”: concepção da realidade que nos toca e nos cerca, e os significados e significantes que tomam corpo e forma em nossa visão de mundo e pertencimento do ser, tornam-se vazios, um absoluto nada.

Onde toda a objetividade transforma-se em subjetivo amorfo, sem forma e vazio de substância (significado), cabe ao ser humano o desespero e angústia do insuportável, lidar com um vazio substancial perante um outro vazio real, dentro de si.

Repetimos frases em dias pré-determinados, como: “feliz natal”, “feliz páscoa”, “feliz ano-novo” etc. No entanto, arrisco-me a dizer que poucas pessoas hoje compreendem o significado destas frases e datas, e menos pessoas ainda vivem ou sentem os aspectos simbólicos ligados a estas expressões. Tornaram-se frases de efeito sem efeito nenhum, ligadas sempre a compra e consumo de algo, a venda sistemática de algum produto que possa ser comercializado e assim, se possível, tapar o grande buraco que se forma quando estas datas deixam de significar alguma coisa.

Vendemos nada para coisa alguma – nenhuma, como ratos de laboratório presos em um labirinto, que para os ratos não significada nada, além de tortura, caos e ilusão, acabamos presos em uma teia sem significado e registro, que expressa nossa própria agonia de existência indefinida. Um caos travestido de uma aparente ordem externa, em que o ser humano é vendido, traficado, por tornar-se um número só de registro perante a inutilidade do tornar-se humano: emoções, desejos, assombros etc. Tantas sensações e qualidades que poderiam ser descritas, mas anulam-se no grande jogo do capital que não move montanhas, mas finge direcionar-se para algo “bom”, luminoso, em algum futuro próximo, logo depois da esquina em que algum desavisado tropeçou e caiu na vala do esquecimento, incapaz de trabalhar neste sentido distópico, tropeça no próprio fôlego e acaba encarando o ser inútil que se tornou, seja para si mesmo seja para o Todo em questão.

A grande guerra, ou revolução, será travada dentro de si - dentro de ti, ou já está sendo travada por alguns. Os “desavisados” caminham sem pensar, sem refletir, seja sobre o passado ou futuro, o presente é consumo de si enquanto a bocarra social engole seus sonhos e projetos, empurra seus olhos e cabeças para o chão, anulando ao mesmo tempo a visão que poderiam ter dos próprios pés e das suas raízes, fazendo-os hora ou outra tropeçarem em si e caírem de boca no chão, na “sarjeta” dos que não produziram “certo” – “direito” – “satisfatoriamente bem”.

É necessário ativar os símbolos em si, agregar os significados internos e significantes atrelados que só podem vir do interior do Ser, no complexo da Alma, no lugar onde nada surge do externo, mas sim de um local sagrado no centro do coração – a Fonte da Alma; no lugar onde se localiza a Fonte da Juventude Eterna, aquela que não mata a Alma nem destrói o Espírito, no local sagrado onde você pode sentar, pensar, relaxar, se permitir Ser quem você realmente é... Sem “tirar nem pôr”.

Essa é a revolução que se espera acontecer, no raiar de um novo dia, poucos têm, ou terão coragem de desafiar as forças e obstáculos que criaram para si mesmos, diante de um mundo que prometeu tanto e nada oferece. Cansado de migalhas e pão dormido? Você não é pássaro para bicar no chão... Levanta a cabeça! Olhe para o alto, para cima, não esqueça dos pés no chão, cravados na terra, e assuma teu posto, abra seu coração, e permita que a Força e a Luz brilhem do seu interior, da Presença do Cristo dentro de ti abre-se um novo caminho, uma nova porta de entrada para uma outra realidade, em que você é real, presente, alegre, contente, vivo! Objetivo de significados e significância, subjetivo de Amar, subjetivo de Amor.

Quando o sol já tiver raiado, e o galo já tiver cantado três vezes, levante a cabeça e sorria, o que mais poderia ter significância do que a certeza que você é vivo, sente, caminha, é real e não fantasia de alguém, de um outro.

Acredite no seu mundo interno, no todo inconsciente que você ainda não mergulhou, desbravou, recolonizou... A questão, o papo, é só contigo, a arena é a vida, e todo embate será travado entre a consciência de ser, a angústia de existir, e o medo de não se arriscar pela dúvida em A-mar.


Jorge C. Neves

O Lanterninha



 Hoje muito se fala em profissões que provavelmente desaparecerão devido as novas tecnologias de informação, mas houveram outras profissões que deixaram subitamente de existir, e praticamente ninguém notou, uma dessas era a função do lanterninha nos antigos cinemas de rua.

Com a entrada das grandes redes de cinema, e a popularização destas nos shoppings centers, os benefícios de grandes telas, som de altíssima qualidade, sistema digital se sobrepondo em relação ao analógico, e suas tiras de rolo de filmes com aquele barulhinho clássico das antigas máquinas de projeção… Tudo trocado de um dia para o outro, as cadeiras de madeira forradas com couro azul ou vermelho, o balcão de madeira na entrada cheio de balas e doces, e com tudo isso, o tal do lanterninha: sumiu.

Quem era essa figura pitoresca presente em casa sessão de cinema? No crepúsculo, ali ele estava, como uma espécie de batman desprivilegiado, um farol a iluminar a escuridão, apenas com uma lanterna na mão (as lanternas de antes eram bem fracas, bem distante da potência que qualquer aparelho celular hoje possui). Mesmo assim, sua presença sempre impunha respeito e tensão quando passava, sua tarefa era coibir qualquer bagunça, pés em cima do assento da frente, sujeira no chão etc. E sempre era atendido, o poder de uma luz qualquer na escuridão, como a presença de um facho de luz nos mostra os piores instintos e tudo aquilo que se esconde no “escurinho do cinema”.

Ninguém sabia quem era, quem era essa pessoa que se escondia no breu da sala de cinema? Não se via o seu rosto, só sua silhueta e a indefectível lanterna em sua mão…

Com o advento das grandes salas de cinema, tudo se apagou, se acabou, o lanterninha desapareceu de repente, sua presença não era mais vista e nem notada, um belo dia sua profissão desapareceu, a lanterna se apagou, as cortinas desceram pelas telas, os cinemas de rua faliram, fecharam e em seu lugar igrejas pentecostais, grandes lojas de sapato, roupa, acessórios baratos, em um piscar de olhos, o filme rolou e cenas de sua vida foram cortadas e vida que se seguiu.

Tchau Lanterninha, espero que estejas iluminando os céus na escuridão da penumbra para aqueles que tateiam na escuridão a procura de um Lar, um abrigo, uma fonte segura, uma cadeira confortável para sentar, uma cena edificante, um altar, o mar…

Para um Lanterninha qualquer… minha gratidão.


Jorge C. Neves

O ser subjetivo em uma sociedade que se consome


  Cada vez mais caminhamos para uma total insignificância perante nossa individualidade humana, o ser humano integral tornando-se subjetivo perante uma sociedade que destrói o significante, o simbólico e todos os agregados diante de uma ânsia compulsiva em autofagia, o canibalismo puro da essência em troca do absoluto nada.

         Somos seres simbólicos, necessitamos de significado, sensação e sentimento de pertencer ao mundo, ao todo, a realidade ao redor, seja de forma individual ou em conjunto – comunidade – cooperação; entretanto, perante uma realidade compulsiva em criar consumo absoluto sobre tudo e sobre todos, tornamo-nos cada vez mais obsoletos, vazios e inúteis, pois toda a “carga”: concepção da realidade que nos toca e nos cerca, e os significados e significantes que tomam corpo e forma em nossa visão de mundo e pertencimento do ser, tornam-se vazios, um absoluto nada.

Onde toda a objetividade transforma-se em subjetivo amorfo, sem forma e vazio de substância (significado), cabe ao ser humano o desespero e angústia do insuportável, lidar com um vazio substancial perante um outro vazio real, dentro de si.

Repetimos frases em dias pré-determinados, como: “feliz natal”, “feliz páscoa”, “feliz ano-novo” etc. No entanto, arrisco-me a dizer que poucas pessoas hoje compreendem o significado destas frases e datas, e menos pessoas ainda vivem ou sentem os aspectos simbólicos ligados a estas expressões. Tornaram-se frases de efeito sem efeito nenhum, ligadas sempre a compra e consumo de algo, a venda sistemática de algum produto que possa ser comercializado e assim, se possível, tapar o grande buraco que se forma quando estas datas deixam de significar alguma coisa.

Vendemos nada para coisa alguma – nenhuma, como ratos de laboratório presos em um labirinto, que para os ratos não significada nada, além de tortura, caos e ilusão, acabamos presos em uma teia sem significado e registro, que expressa nossa própria agonia de existência indefinida. Um caos travestido de uma aparente ordem externa, em que o ser humano é vendido, traficado, por tornar-se um número só de registro perante a inutilidade do tornar-se humano: emoções, desejos, assombros etc. Tantas sensações e qualidades que poderiam ser descritas, mas anulam-se no grande jogo do capital que não move montanhas, mas finge direcionar-se para algo “bom”, luminoso, em algum futuro próximo, logo depois da esquina em que algum desavisado tropeçou e caiu na vala do esquecimento, incapaz de trabalhar neste sentido distópico, tropeça no próprio fôlego e acaba encarando o ser inútil que se tornou, seja para si mesmo seja para o Todo em questão.

A grande guerra, ou revolução, será travada dentro de si - dentro de ti, ou já está sendo travada por alguns. Os “desavisados” caminham sem pensar, sem refletir, seja sobre o passado ou futuro, o presente é consumo de si enquanto a bocarra social engole seus sonhos e projetos, empurra seus olhos e cabeças para o chão, anulando ao mesmo tempo a visão que poderiam ter dos próprios pés e das suas raízes, fazendo-os hora ou outra tropeçarem em si e caírem de boca no chão, na “sarjeta” dos que não produziram “certo” – “direito” – “satisfatoriamente bem”.

É necessário ativar os símbolos em si, agregar os significados internos e significantes atrelados que só podem vir do interior do Ser, no complexo da Alma, no lugar onde nada surge do externo, mas sim de um local sagrado no centro do coração – a Fonte da Alma; no lugar onde se localiza a Fonte da Juventude Eterna, aquela que não mata a Alma nem destrói o Espírito, no local sagrado onde você pode sentar, pensar, relaxar, se permitir Ser quem você realmente é... Sem “tirar nem pôr”.

Essa é a revolução que se espera acontecer, no raiar de um novo dia, poucos têm, ou terão coragem de desafiar as forças e obstáculos que criaram para si mesmos, diante de um mundo que prometeu tanto e nada oferece. Cansado de migalhas e pão dormido? Você não é pássaro para bicar no chão... Levanta a cabeça! Olhe para o alto, para cima, não esqueça dos pés no chão, cravados na terra, e assuma teu posto, abra seu coração, e permita que a Força e a Luz brilhem do seu interior, da Presença do Cristo dentro de ti abre-se um novo caminho, uma nova porta de entrada para uma outra realidade, em que você é real, presente, alegre, contente, vivo! Objetivo de significados e significância, subjetivo de Amar, subjetivo de Amor.

Quando o sol já tiver raiado, e o galo já tiver cantado três vezes, levante a cabeça e sorria, o que mais poderia ter significância do que a certeza que você é vivo, sente, caminha, é real e não fantasia de alguém, de um outro.

Acredite no seu mundo interno, no todo inconsciente que você ainda não mergulhou, desbravou, recolonizou... A questão, o papo, é só contigo, a arena é a vida, e todo embate será travado entre a consciência de ser, a angústia de existir, e o medo de não se arriscar pela dúvida em A-mar.


Jorge C. Neves

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Ah Vaidade, Vaidade...



 Ah Vaidade, Vaidade...


        Muitos se perdem e se travam diante de uma espécie de dilema sem solução, por falta de uma palavra que diferencie aquilo que é do erro, ficamos todos parados na manipulação do medo, no velho adágio do “pecado”, neste caso: a vaidade.

Dizer que “há um pecado na vaidade” é diferente de: “a vaidade é um pecado”; no primeiro há um ponto, um problema a ser resolvido diante de um impasse, e no outro é uma sentença definitiva sem escapatório, o morto já foi condenado sem absolvição, e sem julgamento.

        Somos seres que necessitam do olhar do outro, seja o recém-nascido que precisa do olhar alheio para sua sobrevivência, e não somente física; seja para a vida inteira o olhar do outro nos persegue e nos anima, permitindo a nossa saúde mental, emocional e moral. Como seres narcísicos que trocam experiências e valores através dos olhos, das janelas que a Alma nos oferece, sendo assim, só a vaidade pode nos levar lá... Ao desejo que nos remete a expressão mais plena, mais pura daquilo que você pode oferecer, o que você pode dar. Tal vaidade está presente no cientista que é ovacionado, premiado diante da descoberta de uma cura de determinada doença, ou avanço significativo na melhora da qualidade de vida; no pintor que expões suas obras em alguma galeria de arte, e recebe os elogios e fama devidas; do escritor que coloca seus livros na biblioteca, na livraria; no orador que se mostra diante de uma plateia com o intuito de trazer alguma informação que possui e seria útil para algumas pessoas, sendo tanto aplaudido ou vaiado diante de sua apresentação.

        Exemplos de vaidades “cheias”, sadias, em que trago ao externo algo de mim diante do olhar do outro que me questiona subliminarmente: o que há em ti que me incomoda tanto a ponto de querer um olhar teu, só teu em mim? Seria então a vaidade positiva de permitir-se mostrar ao olhar dos outros, aquilo que adquiriste, sendo este algo necessário ao outro, mesmo sem o outro saber.

        E temos a vaidade vazia, o tal do cerne do “pecado” em questão, o vaidoso que quer ser olhado, admirado, adorado, sem nada em troca a ser visto, nada a oferecer, um grande vazio. O soberbo que se coloca em um pedestal de nuvens exigindo louros que nunca lutou, que não possui, um mendigo em sua eterna mendicância por um olhar vazio, que nunca será seu. Este sim, a tal vaidade que prejudica a Alma e faz o corpo fonte de suplício e dor.

Então como ser pensante e Real! Só me resta abrir os braços e as cortinas do grande palco e me arremessar para o lado de lá, encarar os olhares dos outros e me oferecer como algo valioso a ser mostrado, há algo aqui que pode ser útil a alguém, muitas vezes serei aplaudido, outras odiado, jogarão flores, moedas e ouro, outras vezes tomates, cerejas e fezes... Mas o olhar do outro foi tocado, a tensão rompida, e aquilo do Ser expresso!
    Falei da vaidade cheia e da vazia, e não teria uma outra? Insípida e falsa? Se da vaidade em si não fujo nunca, pois expressa no olhar dos outros está; só fugindo para uma caverna insólita, sem o olhar de ninguém, de algum outro a me encarar. Mas estando nessa caverna, não teria aqui também a vaidade de me mostrar? A vaidade do “santo”, do guru isolado em sua montanha a procura de encontrar um determinado olhar? Ah Vaidade, querendo fugir-me de ti, a sorvi inteiramente, sem uma gotinha restar...

        Mas poucos sabem, que por detrás do olhar dos outros, dos olhares que há em me sustentar, oculto entre os bastidores, um grande olhar, o grande Outro há de me olhar, satisfazendo assim minha ânsia em despertar de um grande oco, um vazio oculto que me faça revelar. Assuma sua vaidade, traga-a para fora de modo que o público possa te ver, em que exista um grande olhar, que te guia, te protege e afasta do teu cerco os olhares que não prestam à tua revelação; seja de mentiras e manipulação, daqueles que te jogam em um cubículo, uma masmorra agora virtual. Ficar preso e estático por “vaidade”, já é uma tremenda Vaidade, a insípida, aquela do medo de errar...


Jorge C. Neves

02/09/24

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...