Em nossas culturas, possuímos figuras de representação, tanto históricas quanto mitológicas, que trazem um acesso rico de experiências e conhecimentos, e servem como uma espécie de apoio às crenças e significados para determinada sociedade ou povo. No caso aqui em questão, irei traçar um paralelo entre Jesus – o Cristo, Sidarta Gautama – o Buda, e Krishna; e através de contos e histórias revelar como cada um destes teve um encontro consigo, de forma ampla, pura e honesta.
No mundo ocidental cristão, o representante mor de uma presença salvadora e onipotente tem como peça central Jesus de Nazaré, o Cristo, que fez sua ressurreição após os três dias de sepultamento. Minhas ideias aqui se concentram neste espaço de três dias em que seu corpo foi enrolado em linho branco e sepultado dentro de uma caverna, com uma pesada pedra fechando seu acesso.
Dizem aqueles que observam os fatos distante da realidade vigente – mundana, que neste período de “descanso corpóreo”, Cristo em espírito desceu as esferas inferiores indo ao encontro do Abismo primordial da Terra, em reinos onde nossa imaginação não consegue adentrar, em densidades muito mais profundas que a pedra e a rocha, além de toda imobilidade e inação; Tendo Cristo feito sua descida até os confins da Terra, tem em sua frente o Abismo em si mesmo, e este tendo olhado profundamente os olhos azuis celestiais do Cristo, olhos que queimam e atravessam a alma, as células (para quem tem um invólucro físico), átomos e miríades de estrelas e galáxias, tendo olhado neste olhar transformador, o Abismo se viu, se percebeu presente; e neste momento Cristo estende suas mãos à este Abismo e fala:
– Aqui estou, não fujas de mim, estou aqui por você, pegue minha mão.
E então, o Cristo abraça a si mesmo, tendo encontrado a parte que lhe cabe neste cenário dantesco e se conectado novamente com a totalidade do Ser, a completude de si.
Em partes do Oriente, há a figura reverenciada de Sidarta Gautama, um dos Budas mais conhecido. Também me concentro aqui na parte em que Sidarta senta-se de costas para a Árvore do Mundo, o pilar central da Criação, posiciona-se em postura meditativa e decide só sair dali se a Verdade lhe for mostrada:
– Terras e céus se moverão, mas aqui permanecerei fixo, presente! Caso a Verdade a mim não for revelada, daqui não me moverei mais.
Após alguns testes e contratempos, Maya – a Ilusão do Mundo, apresenta-se à Buda em sua face idêntica a ele, mesmo corpo, mesma presença, e diz:
– Eu sou Você! Venha a mim e esqueça dessa promessa.
Sidarta:
– Não, você é Maya, a ilusão deste mundo, daqui não sairei ainda, a não ser que se revele a mim tudo aquilo que és, a realidade em si.
E Maya transforma-se em uma fera colossal, uma criatura horrenda e disforme, a destruidora de mundos e da realidade, com uma enorme bocarra tenta dragar tudo em seu entorno, tudo a sua volta.
Sidarta:
– Não, esta ainda não é a sua real face, não me enganes mais, daqui não sairei.
E Maya caiu em si, desmoronando em frente de Sidarta, até não restar pó, essência e nem presença, o Nada.
Neste momento, Sidarta levanta-se de sua postura inflexível e aproxima-se do Vazio:
– Agora sim, aqui estou, Sidarta! E reclamo minha parte em relação a totalidade, a minha totalidade! Maya, aqui estou.
E Sidarta aproxima-se do absoluto Nada e se abraça… Abraça a si mesmo na parte que lhe faltava, tornando-se Buda – aquele que juntou as suas partes e se iluminou: juntou-se novamente.
E por último, a figura emblemática de Krishna, que com sua dança, alegria, carisma, vitalidade e coragem, transformou toda uma sociedade e geração decadente passada. Krishna é aquele que desafiou o destino através do movimento do próprio corpo, em uma dança incessante, disse Krishna:
– Não pararei de dançar, cantar e rodopiar, enquanto não se revelares a mim! Meus pés pegarão fogo, mas não cessarei o ritmo de meu bailado, a fluidez de meus passos, o ar que perpassa através das circunvoluções de todo o meu Ser, está dito.
E assim fez Krishna, de tanto dançar subdividiu-se em vários, o que lhe permitiu dançar com cada gopi, com cada aspecto feminino presente, tornando-se um em seus aspectos agora fundidos, masculinos e femininos.
Mas não sendo isso o bastante, pôs-se em direção à guerra, ao conflito divisor interno, conduzindo Arjuna – outro de seus aspectos separados, à vitória certeira frente aos seus dilemas, inseguranças e pavores.
Conquistando assim a coragem, coisa que lhe faltava, Krishna senta calmamente na relva, em frente a um lago, e dos Céus, do divino, uma flauta dourada lhe é dada de presente, e uma Voz lhe diz:
– Krishna, agora toque! Toque divinamente, assim como danças, toque! Se queres realmente me conhecer por inteiro, toque o Som da minha Voz em teu instrumento, e céus e terras serão teus.
E Krishna responde:
– Tocar? A mim céus e terras não importam, o que quero, meu desejo é te conhecer Sendo! Meu único intuito é Ser.
Responde a Voz:
– Então toque, e assim será!
E Krishna tocou, como nunca alguém tocou, seja agora, no passado ou além, tocou tanto e interruptamente que se esqueceu de si, do corpo, dos olhos, tornou-se dança, ritmo, som, Voz, melodia, tornou-se tudo o que É!
Krishna abençoa aqueles que tocam suas canções, mesmo com medo no olhar, com dureza no coração, ele não descansará de tocar.
E assim, cada uma destas figuras fez o seu ritmo, traçou caminhos, e conquistou seu eterno lugar: na mente e na alma de cada devoto, simpatizante ou amigo. Krishna não morre, Cristo ressuscita, Buda permanece. E nós caminhamos procurando diariamente se reencontrar, um ritmo aqui, um passo acolá, uma ajuda de um, um auxílio do outro, basta pedir, basta clamar.
Jorge C. Neves
26/11/2023

