quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

A Casa Dividida


Uma análise do conto: Branca de Neve e os Sete Anões

Jorge C. Neves


         A história é antiga, quase todos a conhecem, desde livros, desenhos e filmes, as versões giram em torno de um mesmo tema: “Quem é a Branca, e quem é a Bruxa?”

         Neste Reino, nesta casa dividida, todos são o mesmo ser, a mesma pessoa, retalhos do si mesmo procurando se reencontrar, a eterna busca da consciência por integração, em que o pequeno ego se reconheça dividido, separado, e lute por sua integridade, por sua coerência.

         Já com esta introdução em mente, recomeço minha história (pois toda história é um recomeço, e toda história tem um quê de pessoal subscrito nela) na cena em que a Rainha Mãe – Rainha Bruxa – a Dona do Castelo se coloca em frente do espelho para um interminável questionamento narcisista:

        - Há alguém mais bela do que eu?

        E o Espelho sempre responde:

        - Sim, há alguém mais bela do que você...

        Entretanto, neste dia por uma inspiração maior, o espelho continua:

        - Há alguém mais bela do que você! Sempre haverá alguém mais bela do que você...

        - Você não se olha, não conhece a própria face, o próprio corpo, sua verdade e sua aparência, você só vê a minha face no espelho...

          - Sou eu, tua consciência que sempre está aqui, refletida por uma miragem de espelhos, portanto falo sempre para ti:

        - Sim, sempre haverá mais belas do que tu, criatura...

        - Pois então, se olhe por dentro, de verdade, com total consciência e encontrarás o teu reflexo Real estampado no espelho...

        A Rainha possuída pela curiosidade demanda então ao espelho:

        - Se há alguém mais bela do que eu, me mostre então, me revele a sua face!

        E o Espelho, sabedor das consequências vindouras replica:

        - Sim, te mostrarei tua face mais pura, mas quero lembrar-te que: o que vires refletido em minha face nada mais é do que a ti mesma...

        - Pois que assim seja então! (responde a Rainha...)

        Então na superfície polida do espelho aparece a Branca, a Branca de Neve saltitando pelo ar, nos seus devaneios conversando com os pássaros, e os animais de plantão...

        Diz a Bruxa:

        - Esta não é a Branca? Aquela que vive do lado de fora, do lado de lá? Que vive de costas para mim, para o Castelo e tudo o que eu poderia dar? Aquela que vive cantando, ou se lamuriando, incapaz de me olhar? Será essa mais bonita do que eu? Diga-me Espelho!

        E o Espelho responde:

        - Sim, esta é a Branca, a Branca de Neve, se é mais bonita do que você? Mais bonita do que Ser? Como alguém pode ser mais bela do que o belo que se reflete no Todo, o qual faz parte? Não reconheces a ti mesma?

        E as Sombras respondem então:

        - Nãããõoooo.... Não poderá haver alguém mais bonita do que eu! Mentes espelho, mentes! Quem és tu que vives aí dentro? Será mais sábia do que eu? Cala-te! Eu mesma acabarei com essa disputa...

        E a Rainha em profunda histeria, incapaz de aceitar o Real, se coloca em guerra contra si mesma, procurando destruir o que acabou de ver, não percebe que sem Branca não haveria a Bruxa.

        A Rainha:

        - Chamem o Caçador! Tragam ele até mim! (Quem são esses que ouvem o apelo da Rainha, se no castelo ela vive sozinha?)

        E aparece o Caçador, o aspecto masculino do ser, aquele que está sempre pronto à ação:

        - Que queres de mim Rainha? Estava absorto por aí, tanto tempo perdido sem nada a fazer, sem nada a caçar, dizem as vozes do Bosque que a Bruxa enlouqueceu, só olha para um espelho e dele demanda algo, que ninguém sabe o que é...

        A Mãe, a Rainha sente-se incomodada pelas palavras do Caçador, mas não ao ponto de refletir sobre as vozes que habitam em si, e clama:

        - Chega de bobagens, conheces a Branca? A de Neve, que anda solta por aí?

        - Sim, todos conhecem a Branca, aquela que todos a veem, pois é ela que caminha do lado de fora, aonde há luz, a que brilha, todos a conhecem sim.

        A Rainha sente-se mais transtornada com as palavras diretas do Caçador:

        - Como assim? Todos a enxergam lá fora, e eu? Tão bela assim, trancada aqui...         Deve ser ela a causa de meus tormentos, é ela a fonte dessa magia que tira o sono da minha beleza! É por causa dela que “há alguém mais bela do que eu” ...

        - Caçador! Ouça-me! Quero o coração da Branca, a de Neve, aqui numa bandeja de prata, que reluz como ouro, e reflete só prata.

          - Vá! E não retornes sem ele.

        E o Caçador se coloca confuso, devaneia perante uma ordem que não pode cumprir, se tira o coração da Branca, todos morrem... Inclusive a Rainha, mas se deixa Branca viver, a Rainha não cessará de crescer, inflar, e destruirá todo o Reino, a ira da Bruxa Mãe se derramará sobre todos, no sangue e na lava destruidora...

        - Tive uma ideia, o coração de Branca não dá, mas para ganhar tempo, trarei o coração da Fera, da essência animal, trarei esse coração para a Rainha, poderá acalmá-la, enquanto isso convencerei Branca a fugir para a floresta, fora dos olhares da consciência...

           - Sacrifico os meus instintos, só não mato a minha humanidade!

        Então Branca, avisada pelo Caçador, foge para a densa floresta, a floresta escura, onde ninguém vai por medo de nunca voltar, dizem que quem de lá retorna, não é mais o mesmo, sabe demais e conta de menos...

        Na floresta escura, nos reinos do inconsciente, onde Branca terá que rever suas crenças, sentimentos e pensamentos, terá que se encontrar com partes esquecidas de si e reorganizá-las se um dia quiser encarar a Bruxa, a Rainha Mãe...

        Diz a Branca: - Hora de olhar para mim....

    E Branca caminha sem rumo, escutando as vozes do passado, os uivos do desconhecido, as pedras que um dia foram lançadas para baixo e supostamente esquecidas... E de tanto andar por aí, com os pés já descalços pelo chão, (re)encontra uma casinha, no meio de um bosque... Casinha bonita, limpa e de portas abertas... sem ninguém lá dentro.

        Ao adentrar a casinha começa a faxinar, limpar as gavetas e os armários, tira tudo do lugar, para recolocar de forma nova, mais organizada, encontra plaquinhas com seus sentimentos (alegria, tristeza, raiva etc.) e posiciona em cima das caminhas que encontra em um grande salão. Acende o fogo, a lareira, coloca água na chaleira, põe lenha no fogão... e sente o coração queimar, bater mais forte, se iluminar...

        E ao acender as luzes da casinha, aparecem os Anões, quem são? Os sentimentos de Branca, que estavam todos perdidos, desorganizados... Branca então sente, pela primeira vez sente realmente: alegria, raiva, tristeza, medo, dúvida, dor... Sente o coração bater mais, mais forte, dentro de um peito...

        Os Anões-sentimentos esquecidos, estavam todos nas minas, nas profundezas do inconsciente, atrás das joias e dos diamantes, trabalhavam para o castelo, para a Rainha, pois as Sombras guardam nossos maiores tesouros, nossas grandes conquistas... E todo esse ouro era escoado para fora da floresta escura, nos porões frios do castelo.

        E os Anões ao avistarem Branca sentem um susto! Essa parte da consciência nunca os visita, e pela primeira vez, sentem-se em paz.

        Há um mestre, um dos anões que comanda os outros, põe ordem na casa, tenta organizá-los, mas sem saída, sem um coração presente, sentia-se desanimado, desfalecido... Enquanto a pequena consciência, o pequeno eu não observa a si mesmo, os próprios sentimentos, as Sombras os regem e comandam, bastava o mestre dos Anões obedecer.

        Enquanto isso, no Castelo:

        A Bruxa come do coração-animal que o Caçador lhe trouxe, ao ingeri-lo entra em um túnel longo, escuro e profundo... no cerne do túnel encontra um ser, uma Presença que lhe diz:

        - Branca está viva! Viva e bem com os seus anões, os próprios sentimentos...

        - O Caçador te enganou, ludibriou seus sonhos e auxiliou Branca a fugir para a floresta escura, onde ela (re)encontrou Lar, e um propósito de vida, e você? O que ousa (re)encontrar aqui?

        E a Bruxa Rainha responde:

        - Quem és tu que sabe das coisas? Como ousa me encarar? Sabes quem eu sou por acaso?

        A Presença:

        - Sou tua consciência maior, o Self, procuro levar a luz as minhas partes que necessitam e precisam agora... Você é uma delas, perdida, desamparada e sozinha, atrás da Branca, perdida em si mesma... como a vejo assim.

          - Não quero saber de mais nada! Eu sou a Rainha má agora, meu reino irá me obedecer... quero Branca morta, sua cabeça aqui, agora!

           E então a Presença olha para a Rainha e lhe diz:

        - Se é assim, te levarei até ela, mas no caminho recuperarás a tua face, a face que imaginas ter.

        E a Bruxa Rainha é sugada pelo túnel e se vê caminhando pela floresta em direção certeira à porta da Casinha, que agora é a de Branca...

    Entretanto, no caminho passa por uma transformação e seu corpo vai envelhecendo a passos largos, vai se tornando uma mulher bem idosa e corcunda...         A face que imagina ter, pois se há sempre uma mais bela, ela só poderia se imaginar a mais feia de todas...

        E sendo assim, encarquilhada chega à porta de Branca, sedenta de ódio e amargura, bate três vezes em sua porta, esperando com Branca se (re)encontrar...

Branca atende o chamado e abre a Porta com força... para dar de frente com a Bruxa-Rainha-Mãe-Má... Não estranhando o aspecto da figura ameaçadora a sua frente, pois Branca não vê o Real, só imagina, permanece envenenada pela inconsciência dos sentidos; pergunta à ilustre senhorinha:

        - Olá, o que desejas aqui?

        E a Velha:

        - Olá pequena dama, pareces cansada, com fome, abatida, pálida, com vestes esfarrapadas... Humpf... mas “te” tenho a solução... uma maçã! Uma maçã envenenada, com o amor das fadas e o brilho dos elfos... sinta, cheire, prove, é para você...

        E Branca, que nada percebe de si, olha para a maçã e cobiça... Tanto a juventude perdida pela idosa, por ter se perdido no olhar dos outros, do espelho, e assim se tornado como “és”: “passei tanto tempo no castelo, encastelada, sem ver a rua, o nascer e o pôr do sol... sacrifiquei minha “beleza”, a minha vida, por medo de me revelar, de ser quem eu sou...” Tanto Branca que anseia ser mulher, pelo prazer proibido, pelos mistérios que desconhece do Ser... pelo Caçador que a abandona ainda muito jovem na floresta escura, e desaparece nas brumas do desconhecido.

        A Sombra lhe oferece a maçã envenenada e Branca a come! A devora: “coma do veneno da Vida!”

        Quando o embate da Sombra acontece, se mostra, esteja pronto, atento a dar um passo à frente... e assumir tudo aquilo que um dia, foi reprimido...

        Nesse momento, com a boca e saliva cheias de maçã, Branca vê! Enxerga as sombras à sua frente, vê a si mesma totalmente refletida no espelho... Entretanto, ao invés de se lançar à frente, dar um passo e abraçar a velha senhora, segurá-la com força nos braços e dizer a ela:

        - Sim, eu te reconheço, sou assim como você, estamos unidas como uma coisa só, dois lados da mesma maçã... Mas agora te aceito plenamente assim como eu sou.

Branca se perde... finge histeria, sente-se desmaiar, e cai no sono do esquecimento da Vida e desperta na morte. As Sombras correm, a Bruxa de volta está em seu castelo, mais forte, mais ágil, mais jovem do que nunca.

            Se Branca tivesse assim se aceitado, se olhado, se abraçado, tudo aquilo que repudia em si teria se (re)unificado, estaria inteira novamente, o ser integral... e Bruxa e Branca seriam a mesma pessoa, tomaria posse do Castelo, do Reino, e da Casinha... a floresta iluminaria e os anões teriam se tornado inteiros, partes de si mesma, e reencontraria o Caçador dentro de si.

        E ainda, por último, o fantasma do espelho se libertaria de sua prisão, a consciência estaria livre assim para galgar novos horizontes, outros patamares, a sabedoria retornaria para ela, renovada, expandida...

        Mas agora a Bruxa Rainha é a dona do Reino, das minas, da casa. Branca se perde, se refugia na fantasia, congelada em uma tumba de cristal, vive a espera de um salvador, alguém que irá tirá-la de seu sono eterno e se responsabilizará por sua vida, seus atos e ações. Branca não cresce, se infantiliza para assim nunca se tornar quem é, para nunca mais enfrentar a Bruxa...

        Quando acordar, terá se tornado uma mulher idosa, velha e corcunda, terá se envenenado nos delírios, na conversa com os passarinhos, no veado que passa e acaricia... Se (re)encontrará na frente da portinha de Branca e repetirá o mesmo ritual de sempre: “quem é a mais bela? Quem será mais bela do que eu?” e o tempo assim será:

        Passado.

     Em um ciclo eterno de delírio e perseguição. Os anões já estarão mortos, ou virado pedra pelo olhar desperto das sombras, da Rainha má, que tomou conta de tudo; enquanto Branca fingirá dormir e todos a olharão pelos vidros do esquife.

        E o tal do Príncipe, que nunca existiu, só na fantasia de fuga da Branca, será o Caçador transformado, que se ressurgir subjugará Branca, na vingança do pedido da Rainha Bruxa, que ao não arrancar o coração de Branca, teve de si separado seu instinto animal; e devora a Alma e a carne de Branca, procurando tornar-se imortal; para assim lutar contra a Bruxa, num jogo infernal.

        E a loucura se espalha pelo reino, pelo castelo,

        Pobre Branca...

        Pobre Bruxa.


Obs: Nossa história se finda com a figura do anão Mestre, em pé na linha do horizonte, vivo (há esperança) ou em pedra não sei, mas com o dedo em riste, apontando para a frente, em direção ao infinito, com os olhos abertos, esbugalhados; enquanto a atmosfera lúgubre recai sobre todo o Reino e a floresta, e de sua boca se ouve um murmúrio contínuo: “eu avisei... eu avisei.”


Jorge C. Neves

05/12/2024

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...