sábado, 20 de fevereiro de 2021

Infantilidade Espiritual


 

O desejo infantil de sobressair, de aparecer, entra de imediato em antagonismo com a responsabilidade assumida do próprio salto, da própria ação.

Toda infantilidade interior, no caso da dificuldade de um amadurecimento, de tornar-se adulto dentro de si mesmo e assumir as próprias responsabilidades pela vida, leva a ideias antagônicas do que seja a espiritualidade, ou mesmo do que signifique assumir ou caminhar por um processo espiritual.

Ideias como àquelas em que o indivíduo considera que ter um caminho ou incumbência espiritual signifique “ter as costas quentes”, estar protegido e ungido por um suposto poder superior e estar fora dos problemas da vida, da vida real, por simplesmente estar ajudando aos outros, ou novamente “por estar seguindo orientações superiores...”, orientações vindas da própria alma, sua própria consciência superior e interior.

Por trás destes pensamentos há pessoas ainda presas a um mundo infantilizado, sem responsabilidades, e que se consideram vítimas de um mundo sombrio, duro, difícil etc. Na verdade, querem ser servidas, sustentadas e erguidas, por um suposto brilho interno, que só elas veem, e por uma suposta bondade suprema, que só elas sentem, enquanto os reais necessitados se acumulam ao seu redor, e a estes, estas pessoas não as veem e nem as notam, não há interesse.

Há que ocorrer um real crescimento da mentalidade vigente no que seja a espiritualidade, pois ideias como essa fervem aos montes por aí, nas redes sociais e na boca de supostos gurus de botequim, que sistematicamente destroem e atrapalham o caminho de um real buscador, ou daqueles que precisam e buscam auxílio de suas dores, males e dúvidas.

O sujeito que está na espiritualidade, que a vive, não é superior e nem melhor que ninguém, não é especial, não brilha no escuro, só está fazendo a sua parte, não deseja e não quer louros da vitória, porque sabe que não vem para vencer ninguém, só a seus próprios problemas, dúvidas e carências, sabe ser tão devedor quanto a qualquer outro, mas não permanece atolado na lama das próprias culpas e decepções. No máximo é um soldado nesta tropa espiritual, sendo soldado vem e faz a sua parte, não é um privilegiado cheio de honrarias, por trás das cortinas de seu passado, há erros tremendos, falhas e acertos, dívidas e cobranças, problemas ainda a serem desfeitos, mas não desmorresse e não se aflige, sabe que honra é servir a si mesmo, e fazer o seu melhor, sabe-se estar dentro de um grupo, de uma hierarquia, e sabe que felicidade é servir a sua alma sendo plenamente útil, não desistindo jamais.

Os alienados acreditam-se superiores aos demais, sendo assim são missionários de algum lugar distante, bem distante daqui (quanto mais melhor), sentem-se injustiçados, vitimizados por não serem compreendidos, aceitos e amados como supostamente desejam, querem ser servidos e alçado por aí em liteiras douradas, erguidos acima da multidão por aplausos de boa conduta, de serem “bons”. Esquecem suas faltas e seus pensamentos ocultos, mergulhando em uma auto imagem distorcida, querem prosperidade a qualquer custo, carruagens douradas, carros e passeios de luxo, pois se consideram merecedores de tudo, mesmo não tendo nada, querem ser servidos por todos, escravos diria assim, mas não se movem a um auxílio direto, profundo e fraternal alheio. Solapam a própria consciência com teorias diversas que não levam a concretização alguma, e vivem do que pensam de si, esperando que outros corroborem suas ideias para permanecerem assim, parados e imóveis na inconsciência infantilizada, de uma espiritualidade estéril e pueril.

Muitos acreditam em uma figura de um Deus paternal, que está ali, sentado em um trono recompensando aqueles que foram “bons”, justos, ou quase isso... Vivem de esmolas vindas do alto, acreditam em uma figura divina de Papai Noel, que recompensa os bonzinhos, não mais de brinquedos, mas de carros, casas, viagens, luxo etc. O saco do Papai Noel é infinito, esquecem que vivem em um mundo de trocas e recursos sociais e ambientais finitos e muitos não retornáveis. Enchem-se de quinquilharias para esquecerem-se de si, tapam o próprio sol com a peneira, esperando estarem certos para não olharem a culpa que dia após dia pesa, e como pesa...

Por trás de todo trabalhador espiritual, emissário da luz, ou como queira chamar, há dor, culpa, remorso, medo, saudades ou tristezas, problemas, queixas e decepções, dívidas etc. A espiritualidade, Deus em sua divina paciência dá a luz a quem necessita, força ao desfalecido, calma ao desesperado, oferece todas as qualidades que o ser necessitar para se erguer, para levantar, para caminhar. Ser um emissário da Luz, do Cristo, de Buda, ou seja lá do que for, não lhe dá direito de não sentir as pedras do caminho, ou os espinhos das plantas ao redor, mas lhe dá coragem de se superar, ir além das próprias fraquezas do corpo e do espírito.

“Levante-se então criatura! Erga-se do asfalto quente ou molhado, limpe suas roupas, seque suas feridas, recomponha-se! Esteja pronto para o trabalho, para a missão do dia-a-dia, que nada lhe irá faltar, nem força, nem coragem, nem disposição e nem harmonia, ame-se! De verdade, ame-se! Que a Luz nunca irá se apagar...”

Orar a Deus, a sua espiritualidade, envolve colocar luz nas suas necessidades, nas reais necessidades, mas não espere energias para os seus desejos, estes não servem ao Todo, como uma vez disse Sidarta: o maior dos males é o desejo... E lembre-se também do Cristo, de Jesus para os cristãos que mesmo sendo grande perante esses, nasceu desamparado em uma manjedoura em um estábulo, não tendo vestes, cheirando a estrume de animais, de nada reclamou e de tudo sentia.

“Seja Feliz...

Sendo,

Você”


Jorge C. Neves

20/02/2021

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O Ópio do Povo


 

O ópio do povo seria o orgulho, diria Deus, o orgulho...

De todas as Sombras, de seu hall de possibilidades, nada é mais comum e humano do que o tão mal falado: orgulho, ópio do povo pois possibilita a solidão de não errar, de não se encontrar, de se difamar; claro, ao não ser visto, aceito, acolhido e amado.

Dizem que aqui, este planeta é ou uma escola, ou presídio, ou um manicômio, ou as três coisas juntas. Mas de comum em todos que aqui habitam, como um vírus universal, ou aspecto, há o tão comum orgulho, em maior ou menor grau, mas há em todos por aí, o grande paradoxo é que sem ele talvez não sobreviveríamos no meio que habitamos, seria um mal ou um aspecto Divino, qualidade ou veneno?!...

De todas as Sombras, o aspecto agregador e reconciliador é abraça-las, senti-las, aceita-las, olhar a cada uma delas e se aceitar dentro deste aspecto inteiramente e completamente, é trazê-las para fora e reconciliar-se com tudo isto que foi escondido, ocultado, deixado “para trás”, mesmo sabendo que tais aspectos não morrem, não fenecem, não desaparecem, continuam se alimentando das sobras, da vida, da energia em si e vão lentamente se apropriando de seu hospedeiro, destruindo seus laços, sua saúde, sua vida e aspectos agregados.

Mas quando damos este passo, olhamos e abraçamos estes aspectos internos, nos fortalecemos, nos compreendemos, nos transformamos, pois aquilo que era “sujo” virou um aliado, se agregou em nós mesmos, e caminha lado a lado, dentro a dentro, impedindo as subjugações, as traições, as autopiedades, as falsidades, as mentiras etc.

O orgulho em si, quando não aceito, se vinga, toma conta e destrói seu hospedeiro, as Sombras se ressentem, se magoam, se vingam, se fortalecem no escuro e na solidão, e quanto mais deixadas de lado, mais devoram sem nunca se saciar totalmente. O orgulho não aceito vira ódio, raiva, rancor, ressentimento, amargura, solidão, desprezo e autodesprezo, vilania. Também pode se mostrar como autopiedade, submissão, melancolia, raiva contida, vitimismo e covardia... Sim, o orgulho quer ser aceito, olhado, demonstrado, de uma forma ou outra, ou por estar por cima, ou mesmo estando por baixo, o mais baixo se puder.

O orgulho não visto, torna-se destruidor dos sonhos, algoz de si, impede o auxílio, recusa a ajuda, impede a própria libertação.

Um dos sintomas do orgulho é a culpa, a tão sonhada culpa dos orgulhosos, sua droga e fascínio, sua heroína, sua obsessão. Nada mais alegra o orgulho que uma culpa tão sonhada, ser importante sim, mesmo na “merda”, mesmo na “demonização”. O orgulhoso pede carinho, contato, atenção, chamar a atenção é seu mote, seu dom, e quando não consigo me aceitar orgulhoso sendo, orgulho estando, esta Energia tomará seu cálice e te colocará a seus pés, estando nas ruas, nas sarjetas sociais ou da vida, jogados por aí, pedindo, implorando: “me aceite assim, me aceite sim, eu estou aqui...”.

O orgulho é fascinação, pelo pódio, pelo poder, por amor, prestígio, atenção... É pela falta de atenção, auto observação de si mesmo, da necessidade de afirmação, de foco, de ter seu lugar no mundo, na sociedade que vive, no mundo em que habita, é seu poder de se colocar, de se mostrar: “Sim, eu existo! Tenho meu lugar no mundo, na sociedade em que moro, Eu existo sim!”. O orgulho é seu aliado para poder Ser, e poder Ter, para poder se manifestar sendo você, para poder ter a Paz que tanto busca, que tanto quer... Se abrace, abrace o seu Orgulho, veja-o, perceba-o, aceite-O, e faça as pazes consigo mesmo, sabendo que está tudo bem, não é “pecado”, não é ruim, é Você! Sendo você...

Vou repetir, o Orgulho não é ruim, se aceito e integrado, mas deixado de lado, escondido, renegado, é ópio do povo, veneno amargo, ódio manifestado.

Há uma outra classe de orgulho ferido, não aceito, não acolhido, daqueles que se reúnem, geralmente de uma “boa” idade, em que competem pela ruína, a competição da dor, ou competição de “merda” mesmo, em que um começa a destrinchar seu rosário de dores passadas, dificuldades na vida, na infância, no emprego etc. E os outros não deixam por menos, cada um expondo dificuldades piores para os outros, o campeão leva um troféu: o mais “fudido”, o mais sacaneado, o pior da espécie, o mais coitado, aquele que sofreu as dores do mundo nas costas, e não sabe o porquê...

Imagino Deus, sendo onisciente, como se fala por aí, ouvindo este tipo de conversa, esse tipo de insulto aos ouvidos divinos, e se perguntando: “onde foi que errei?...”

Onde foi que erramos? Como espécie, como indivíduo, como civilização? Onde deixamos de lado nossa autonomia, nosso poder pessoal, nossa autoestima verdadeira e real, colocando de lado nossos sonhos, projetos, foco de vida, autoimagem verdadeira, e Ser real... Onde foi que escolhemos ouvir o outro lado? Da mentira, da calúnia, da ilusão do Não Ser, do deixar de Ser, do deixar-nos de lado, de fora, da auto separação.

Que nossos aspectos sejam reverenciados, alinhados, compreendidos, analisados se assim for, consertados, juntados! Lado a lado, peça a peça, como um quebra-cabeças, que as peças do Orgulho que a mim me cabem, se conectem agora, vamos criar um grande quadro, um novo quadro, em que eu me sinta unido, forte, sonhador.

Realinhados então, lembro o final do filme “O Advogado do Diabo” em que Al Pacino diz assim: “A vaidade é, definitivamente, meu pecado predileto!”. A vaidade aliada e amiga do orgulho, me mostre enfim, que me mostre assim, o meu lugar no mundo, o meu real lugar em mim. E que ninguém me diga que não, e que ninguém me diga que sim...


Jorge C. Neves

Itajaí, 10/02/2021

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...