O desejo infantil de sobressair, de aparecer, entra de imediato em antagonismo com a responsabilidade assumida do próprio salto, da própria ação.
Toda infantilidade interior, no caso da dificuldade de um amadurecimento, de tornar-se adulto dentro de si mesmo e assumir as próprias responsabilidades pela vida, leva a ideias antagônicas do que seja a espiritualidade, ou mesmo do que signifique assumir ou caminhar por um processo espiritual.
Ideias como àquelas em que o indivíduo considera que ter um caminho ou incumbência espiritual signifique “ter as costas quentes”, estar protegido e ungido por um suposto poder superior e estar fora dos problemas da vida, da vida real, por simplesmente estar ajudando aos outros, ou novamente “por estar seguindo orientações superiores...”, orientações vindas da própria alma, sua própria consciência superior e interior.
Por trás destes pensamentos há pessoas ainda presas a um mundo infantilizado, sem responsabilidades, e que se consideram vítimas de um mundo sombrio, duro, difícil etc. Na verdade, querem ser servidas, sustentadas e erguidas, por um suposto brilho interno, que só elas veem, e por uma suposta bondade suprema, que só elas sentem, enquanto os reais necessitados se acumulam ao seu redor, e a estes, estas pessoas não as veem e nem as notam, não há interesse.
Há que ocorrer um real crescimento da mentalidade vigente no que seja a espiritualidade, pois ideias como essa fervem aos montes por aí, nas redes sociais e na boca de supostos gurus de botequim, que sistematicamente destroem e atrapalham o caminho de um real buscador, ou daqueles que precisam e buscam auxílio de suas dores, males e dúvidas.
O sujeito que está na espiritualidade, que a vive, não é superior e nem melhor que ninguém, não é especial, não brilha no escuro, só está fazendo a sua parte, não deseja e não quer louros da vitória, porque sabe que não vem para vencer ninguém, só a seus próprios problemas, dúvidas e carências, sabe ser tão devedor quanto a qualquer outro, mas não permanece atolado na lama das próprias culpas e decepções. No máximo é um soldado nesta tropa espiritual, sendo soldado vem e faz a sua parte, não é um privilegiado cheio de honrarias, por trás das cortinas de seu passado, há erros tremendos, falhas e acertos, dívidas e cobranças, problemas ainda a serem desfeitos, mas não desmorresse e não se aflige, sabe que honra é servir a si mesmo, e fazer o seu melhor, sabe-se estar dentro de um grupo, de uma hierarquia, e sabe que felicidade é servir a sua alma sendo plenamente útil, não desistindo jamais.
Os alienados acreditam-se superiores aos demais, sendo assim são missionários de algum lugar distante, bem distante daqui (quanto mais melhor), sentem-se injustiçados, vitimizados por não serem compreendidos, aceitos e amados como supostamente desejam, querem ser servidos e alçado por aí em liteiras douradas, erguidos acima da multidão por aplausos de boa conduta, de serem “bons”. Esquecem suas faltas e seus pensamentos ocultos, mergulhando em uma auto imagem distorcida, querem prosperidade a qualquer custo, carruagens douradas, carros e passeios de luxo, pois se consideram merecedores de tudo, mesmo não tendo nada, querem ser servidos por todos, escravos diria assim, mas não se movem a um auxílio direto, profundo e fraternal alheio. Solapam a própria consciência com teorias diversas que não levam a concretização alguma, e vivem do que pensam de si, esperando que outros corroborem suas ideias para permanecerem assim, parados e imóveis na inconsciência infantilizada, de uma espiritualidade estéril e pueril.
Muitos acreditam em uma figura de um Deus paternal, que está ali, sentado em um trono recompensando aqueles que foram “bons”, justos, ou quase isso... Vivem de esmolas vindas do alto, acreditam em uma figura divina de Papai Noel, que recompensa os bonzinhos, não mais de brinquedos, mas de carros, casas, viagens, luxo etc. O saco do Papai Noel é infinito, esquecem que vivem em um mundo de trocas e recursos sociais e ambientais finitos e muitos não retornáveis. Enchem-se de quinquilharias para esquecerem-se de si, tapam o próprio sol com a peneira, esperando estarem certos para não olharem a culpa que dia após dia pesa, e como pesa...
Por trás de todo trabalhador espiritual, emissário da luz, ou como queira chamar, há dor, culpa, remorso, medo, saudades ou tristezas, problemas, queixas e decepções, dívidas etc. A espiritualidade, Deus em sua divina paciência dá a luz a quem necessita, força ao desfalecido, calma ao desesperado, oferece todas as qualidades que o ser necessitar para se erguer, para levantar, para caminhar. Ser um emissário da Luz, do Cristo, de Buda, ou seja lá do que for, não lhe dá direito de não sentir as pedras do caminho, ou os espinhos das plantas ao redor, mas lhe dá coragem de se superar, ir além das próprias fraquezas do corpo e do espírito.
“Levante-se então criatura! Erga-se do asfalto quente ou molhado, limpe suas roupas, seque suas feridas, recomponha-se! Esteja pronto para o trabalho, para a missão do dia-a-dia, que nada lhe irá faltar, nem força, nem coragem, nem disposição e nem harmonia, ame-se! De verdade, ame-se! Que a Luz nunca irá se apagar...”
Orar a Deus, a sua espiritualidade, envolve colocar luz nas suas necessidades, nas reais necessidades, mas não espere energias para os seus desejos, estes não servem ao Todo, como uma vez disse Sidarta: o maior dos males é o desejo... E lembre-se também do Cristo, de Jesus para os cristãos que mesmo sendo grande perante esses, nasceu desamparado em uma manjedoura em um estábulo, não tendo vestes, cheirando a estrume de animais, de nada reclamou e de tudo sentia.
“Seja Feliz...
Sendo,
Você”
Jorge C. Neves
20/02/2021

