Há uma expressão, já em desuso: “o escafandro de carne”; a qual remete a sintonia e separação entre corpo e alma (espírito), o dualismo socrático e platônico no qual a alma está no corpo (escafandro), mas a este não pertence (mundo das ideias); estaríamos todos então encarcerados – encarnados em um escafandro pesado, que nos prende à terra, ao mesmo tempo que nos encarcera na vida, em nossa atual existência. Todos estaríamos “respirando” e conectados por um tubo, no topo da nossa consciência, ou cabeça (sahasrara), que proporciona o contato com o oxigênio divino, fonte de nossa sabedoria e fé; posto que é nos impossibilitado enxergar esse tubo, pois, por mais que possamos mover a cabeça de um lado para o outro, não temos acesso (dentro do escafandro) à essa visão superior, precisamos crer que ela está aí e, mais do que isso, senti-la.
Me lembro de conhecer a função do escafandro por um desenho animado do Popeye, no qual ele se veste de um escafandro e desce, se joga, no fundo do mar para buscar alguma coisa, se não me engano uma lata de espinafre, ou coisa assim. O fato é que para descer e mergulhar na matéria densa, assim como para descer e mergulhar nas profundezas do inconsciente é preciso de coragem... O sujeito que utilizava um escafandro para mergulho tinha uma dose de coragem, mas acredito que também uma dose de loucura, porque a probabilidade de algo sair fora do controle era grande e pesada.
O escafandro é o que possibilita caminhar nas profundezas do mar como se estivesse caminhando na terra, é o contato primordial com o solo arenoso, ou pedregoso, das profundezas marítimas, das fossas abissais. Aquele que mergulha nas profundezas do inconsciente precisa suportar pressões elevadas de formas arquetípicas, de estruturas benéficas e maléficas, boas ou ruins, apesar dessa identificação não fazer sentido nessas profundezas onde o um e o zero estão contidos em si, desidentificados.
Mas, aquele que tem coragem e suporta a pressão inconsciencial da forma e da não-forma, pode caminhar pelo solo primordial da Mãe-Terra, ou pelo menos, se arrastar por ali, e reencontrar-se com uma porta, uma saída... Nas profundezas do “Oceano sem fim”, há uma luz branca que cega, ao entrar em contato com esta há de se deparar com o espelho invertido: a face do Outro – do outro Eu. E nesse momento de (re)encontro, o 2 torna-se 1 novamente...
Se revestir de um escafandro, da armadura de concreto (o Real da vida), nos possibilita caminhar por lugares ainda desconhecidos, afinal, o que é a vida? E acima de tudo, nos fornece a chave de compreender não o que eu faço por aqui, mas sim, o que é que eu possa fazer? Para quê serei útil? Não sabe ainda responder essas questões? Não se preocupe, caminha! Continue caminhando que há alguém lá em cima bombeando luz e oxigênio para dentro desta cabeça, desta mente, deste Ser: ouse-se Ser!
Jorge C. Neves
21/05/25

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