sexta-feira, 13 de maio de 2022

A Erva


 

Conhecido por Tapí´Hí (pronuncia-se tapí), curandeiro e chefe maior de sua tribo, famoso por propagar profecias e conhecedor das mudanças de tempo e estações, quando irá chover fortemente e quando a seca vai passar e secar as pastagens e toda a agricultura construída.

Respeitado também pelos dons da vidência e da comunicação com os Espíritos dos Ancestrais e dos outros que ninguém conhece bem e nem ousam nomear.

Estando de pé frente a frente com um grande conhecido, um ser de muitos metros de altura, de pose e semblante imponente comparado a Tapí´Hí, mas com fisionomia benevolente e um ar resignado de alguém que deve auxiliar e passar conhecimento para um outro que não tem a capacidade plena de entender a mensagem propagada.

Este Ser das estrelas o cumprimenta como de hábito, e deixa em suas mãos algumas sementes, tiradas de algum outro lugar na galáxia, sementes de cor verde esmeralda, que brilham ao contato com o campo do ser, do alienígena em sua frente. E este assim o fala: “Tapí´Hí, já se passaram muitas luas e muitos sóis desde que eu aportei aqui e conquistei seu olhar e amizade, trago comigo algumas plantas, umas ervas que te serão necessárias nos processos pelos quais a sua tribo irá passar, talvez estas dádivas vindas de tão longe lugar possam abrir caminho perante a ilusão e o desespero que vocês, como humanidade, se encontram. Mas ai daquele que o usar e tocar por puro benefício, sem olhar o todo a sua volta, e sem respeitar os espíritos daqueles que guardam os segredos das florestas e das matas, dos elementais que se abrigam dentro destes vegetais, e de todos que possam ser acolhidas por este olhar. Olhe-o bem! Pois seu uso pode ser a ruína e tragédia de muitos e de muitos grupos e tribos que nada de concreto tem a partilhar. Que assim seja.”

Tapí´Hí se utilizou da erva quando sua situação e da própria tribo estavam em perigo, nas poucas vezes que a ferveu e as portas do inferno e do céu se abriram, soube tirar proveito e retirar dali tudo o que necessitava para superar a crise e as tempestades que teimavam em cair sobre aquelas cabeças de parcos recursos e pouco conhecimento da realidade do Todo.

Determinado dia, estava Tapí´Hí ensinando discípulos que poderiam manter a linhagem dos conhecimentos da tribo e da sabedoria que por ele foi trabalhada, quando um ataque feroz, uma implosão de faíscas de energia dentro de si, fez despertar nele uma saudade desconhecida dos campos elíseos deixados para trás e que agora pediam o seu retorno à sua pátria deixada. Liberando assim seu corpo físico, sua mortalha liberada, Tapí´Hí se foi abrindo o caminho para os outros que viriam atrás.

Muitos se utilizaram da força, da erva de várias maneiras, usos e experimentos foram feitos ao passar do tempo, alguns benéficos para a maioria, outros desastrosos. Alguns conseguiram se sintonizar com aquele Ser, e por este foram guiados em direção a um campo maior de saber e liberação do passado e de suas raízes; outros falharam e por ela foram consumidos e enterrados.

Dizem que a erva foi tomando forma e consciência ao passar das eras, e assim escolhia quem deveria guardar seu segredo e para quem deveria ser administrado. Havia um intercâmbio entre a consciência do vegetal e a consciência humana que seria seu portador, como uma simbiose. Ao tomar consciência de si, visto que a erva não era daqui e partilhava uma evolução distinta de seus irmãos de flora terrestre, tomou gosto e se apoderou de espíritos incautos e inocentes das responsabilidades e perigos, consumindo-os em si. Há relatos dos corpos estendidos e enrolados nos cipós altos das grandes árvores, e ali deixados como aviso e após jogados na lama movediça para que virassem adubo orgânico e pagassem o tributo da ignorância, entregando ao solo, às raízes, a sua forma. Gritos ainda se ouvem, nos ecos dos grandes vales e montanhas, daqueles que ainda estão enrolados na cadeia de cipós embaixo do solo, dentro da terra.

Tempos após, quando a mata e a terra já tinham sido conspurcadas e o homem branco adentrou pelas trilhas ocultas e escondidas, já também devassadas pelas pisadas de guerras e de cavalos, e do embate doentio entre povos irmãos, por estas trilhas manchados de sangue escuro, foram se abrindo estradas, trilhos de trem, túneis e passagens gigantes, e onde era verde tornou-se cinza pálido e desbotado, com ruídos e buzinas estranhos aos antigos sons dos pássaros e macacos, e de toda fauna que antes dominava as terras consideradas “ inóspitas”.

E lá de dentro se trouxe a amarga erva, que foi presente de um Ser de outro orbe, de outra existência, e aqui foi misturada, processada, envolvida com outra e outras ervas daqui, e assim foi se processando esta agonia mútua de um ser vegetal alinhado com interesses obscuros e mesquinhos, daqueles que só veem ouro e poder, por onde tocam e por onde caminham.

O Simbionte

Tal erva, assim a duras e sangrentas penas adquirida, começa a tomar forma dentro da consciência de humanos que a tocam e buscam, sem nem saber o porquê.

Entrando pelas vielas escuras da inconsciência, subindo até o topo da montanha do ser, do existo, tomando conta e caminho de processos, neurônios e sinapses, se enraizando pelas linhas nervosas do sistema, tomando espaço por linfas e vasos sanguinolentos, tomando os olhos de sua “vítima”, de seu hospedeiro, e comandando-o assim de dentro, e cada vez mais colocando para dentro o fel e amargor da bílis de outro ser vegetal.

Nos contos e antigas aventuras e viagens marítimas, dentro das grandes caravelas, diz-se que depois de uma bruma, um denso nevoeiro que tomava conta do barco e da tripulação, muitos marinheiros ouviam o “canto da sereia”, onde aturdidos, encantados e desesperados, se jogavam no mar esperando encontrar a fonte de tão doce e bela sinfonia, assim se afogavam em sua busca e desapareciam. Se não fossem alguns marinheiros precavidos e de íntimo sólido e forte, que ao tomarem conta da situação amarravam os iludidos no mastro até que o encanto passava, e o nevoeiro se perdia, muitas navegações e descobertas nem teriam chegado ao seu rumo e todos estaríamos afogados agora.

Pois deixando de lado sua vida e suas responsabilidades, passando o poder de suas escolhas para o alto e para ninguém, vagando desiludido e iludido pela fantasia do que quer ver, cheirando a podre e erva, e manchando de verde por onde toca, aonde pousar, de seu corpo raízes grossas e ferrugentas saem de braços, pescoço e pernas, pelos buracos do calcanhar que nem mais sentem. Dispostos ao deus-dará da inconsciência, do inconsciente infantil e assim infantilizado perante o Todo, desmaia no torpor do sono leve daqueles que perderam sua alma pela embriaguez do poder, da fama, e do medo. No monstro de Hyde assim se tornaram.

Assim a erva traça seu plano de limpeza e colheita, de adubação e separação, de joio e de trigo, todos dentro de si, e quem não a vomita, não a jogue para fora, a ela se grudará e do vegetal se encaminha para que se afogue na inconsciência verde do desespero e da ilusão. E como o grande Ser que lá atrás aqui aportou, ofereceu, direcionou e avisou, chegará a hora em que daqui será novamente retirada, para que aqueles que dela abusaram, violentaram, e se embriagaram, possam permanecer como sinal e aviso, como sombras perdidas tentando se achar, atrás das sereias de nenhum lugar.


Jorge C. Neves

13/05/2022

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Na Obsessão



  Este é um assunto muito falado e apresentado no meio espiritualista – a obsessão espiritual – e o papel colocado diante de obsessores e obsidiados, desta dupla dinâmica, pois um se alimenta e alimenta o outro muitas vezes, enquanto a verdadeira imagem desta cadeia nunca é explorada em seu sentido mais amplo.

Obsessão é todo processo pelo qual um ser se coloca como julgador, impositor e carrasco de alguém, sendo este outro o foco e a vítima de seus processos doentios. Todo obsessor está preso por correntes mentais de ódio, nos quais o foco, atenção e sentido de viver é fazer que aquela pessoa pague, sofra, como uma forma distorcida de ser compensado por erros supostamente cometidos no passado por este outro. Supostamente, pois sabemos que nas malhas do maniqueísmo e da manipulação, outros podem se passar por salvadores quando realmente não são, e ainda outros podem ser taxados como vítimas, que também não são, e outros como o bode expiatório da história.

A Lei – Lei Espiritual - em si é justa, posto que se coloca que toda dívida deve ser paga, todo débito deve ser resgatado, e toda ficha deve ser limpa. Nós, seres endividados perante o “SPC” espiritual e com longa ficha criminal perante as instâncias da Justiça Divina, junte tudo e chame-o de carma, temos falhas perante nosso campo espiritual, perispírito, ou corpo espiritual (conjunto de todas as camadas), falhas esta que geram buracos por onde anomalias, ataques e obsessões podem ser acessadas e colocadas. Junte a isso a tal lista, o registro de nossas dívidas cármicas, que assim acessadas podem revelar um caminho de obsessões por aqueles que não nos esquecem, e nem nos perdoam.

Todo aquele que odeia, que tem seu foco e sua mente concretizados plenamente em alguém, lá no fundo o ama! Desesperadamente, pois tanto ódio quanto amor têm sua atenção focalizadas em alguém. Mas quem odeia, mais no fundo ainda, se odeia, odeia tanto a si mesmo, que deixa de lado a própria essência, o próprio caminho, a própria vida, para destruir, sendo que o “virar as costas para si mesmo” já é autodestruição. “Se não posso aceitar o amor em mim, a admiração (mesmo distorcida) que sinto pelo outro, devo destruí-lo para que eu não sinta todo o amargor e fel que habita aqui dentro de mim”; é uma constante fuga dos aspectos internalizados para que toda a dor não possa ser sentida e assim expurgada do estômago e intestinos sutis.

Esta sistemática perda de tempo, do próprio caminho evolutivo, leva a uma dissonância cognitiva, temporal, espiritual, a uma loucura em que o alvo se perde em meio a um desequilíbrio da Alma. Todo obsessor acaba escravo de alguém, além dos pensamentos em relação ao outro, sua cegueira o coloca como peça de ataque para interesses escusos de outros que afundam no inconsciente das massas – perdendo a si mesmo, perde acesso a sua própria saída e libertação.

Muitas vezes como instrumento de pressão e auxílio, o Mentor espiritual da pessoa obsidiada patrocina - no caso permite a aproximação do obsessor - pois se cego e surdo está ao auxílio amoroso e compassivo oferecido, junto com outros encarnados – pessoas vivas na matéria – que procuram avisá-lo, auxiliá-lo, conduzi-lo sem que este esteja interessado, há que ser “doutrinado” pela dor como xarope amargo que leva a uma realização, um despertar, um trocar de caminhos, vidas, amigos, casa etc.

O Mentor espiritual como auxiliar na evolução espiritual do protegido, libertação e amparo, joga as peças que tem à disposição, seu interesse primordial é libertá-lo das amarras que você mesmo construiu, que você construiu através do ódio, e conduzi-lo novamente a um caminho de superação e subida, elevá-lo ao patamar em que o Mentor se encontra; e fará uso das suas próprias sombras para te conduzir de volta.

Se soma a isso os ditames da Lei, que toda dívida será paga, e permite que as dívidas justas sejam cobradas por aqueles que se sentirem prejudicados pelo ato alheio. A Lei é indiferente aos apelos sentimentais e “amorosos” da disputa, tal jurisdição é feita pela Misericórdia Divina, que contrabalanceia, reajusta e pede uma saída pacífica e harmoniosa para a questão espiritual levantada.

Nós não somos vítimas de nossos próprios processos obsessivos e obsediados. Somos muitas vezes cumplices destas amarras, pois se utilizamos destas correntes, as tais agruras da Vida, para nos colocarmos em posição fetal e deixarmos de lado nossa responsabilidade e poder de desarmar e soltar a situação, se desapegar dos laços doentios que nos unem aos supostos algozes do pretérito.

Pois, diante de um processo obsessivo em que você se perceba como obsediado por alguém, grupo ou causa, primeiro respire, respire profundamente e assuma a sua incumbência, a responsabilidade, a sua causa, e chame os obsessores para uma dança, uma festa, puxe algumas cadeiras e permita que falem, que chorem suas pitangas, seu rosário inteiro, permita que se desnudem a sua frente, assim como você mesmo se desnudou a dar-lhes um espaço, uma cadeira. Esteja aberto a ouvir dolorosas críticas do seu passado e do seu presente, esteja aberto a ser punido através das palavras que ecoarão em sua mente, mas mais do que isso, esteja aberto a se amar profundamente, a se respeitar e a se amar, você não é capacho dos outros, mas deve estar aberto à resolução das dívidas anteriormente assumidas, e reconhecer os seus algozes que hoje lhe cobram coisas que para eles ainda são importantes.

É preciso amar incondicionalmente, com a certeza que isto começa aqui - dentro de si mesmo, dentro da Alma, do coração, é necessário se perdoar e aceitar sim, que você é falho, foi muitas e muitas vezes, e ainda será, não é perfeito e caminha para um processo de autoaceitação, de compreensão profunda e íntimas de teus aspectos ocultos, sombrios, e de reintegração e amparo a estas partes que foram sublimadas da sua presença, do teu caráter, do fundo do teu próprio inconsciente. É preciso estar aberto a compreensão do outro, podendo resgatá-lo através de ti mesmo, do seu abraço, do profundo entendimento da tua própria alma, da sua dor, e das responsabilidades assumidas em teu processo evolutivo.

Se libertando assim da culpa, do remorso, do papel de vítima, se desapegando das dívidas e as transformando em cimento, tijolo e cal para a construção de um novo ser, caminho, ideia, realização, propósito etc.

Todo obsessor é alguém que quer ser notado, quer que as reclamações dele sejam ouvidas, quer ser respeitado em toda a sua dor, milenar as vezes, em prol de te perseguir e atrapalhar enquanto você caminha, vive e morre, aprende e caminha de novo, alguém que precisa ser olhado, e através deste olhar, deste abraço, talvez você descubra que ali há um amigo, um aliado esquecido, e ele também perceba em você o algoz e não a vítima, podendo escolher assim a sua libertação deste peso que ele carrega sem fim.

“Às vezes teu inimigo é o teu melhor amigo”, pois é aquele que me fez caminhar sobre rochedos, atravessar despenhadeiros, subir por montanhas íngremes e escarpadas, atravessar um deserto de pedras e espinhos, e por fim me fez beber a taça de veneno e fel! “Mas achando que me fazia o mal, me fez o bem: pois a sua taça de venenos era a erva, o xarope amargo que minha alma necessitava para se curar, para aprender e evoluir.” Achando que era um inimigo, vejo que era meu melhor amigo, e rezo e oro e agradeço para a cura que me deu.

Todos somos guias de alguém, teus obsessores também são teus guias, há guias benéficos e outros que se utilizam da ignorância e da maldade, mas todos, se vistos e reconhecidos, podem te levar a um patamar superior, a subida da montanha, ao lugar que teu coração almeja e você não sabe.

Acreditem mais em vocês mesmos, se respeitem, se abracem, e creiam que nada está perdido, só ainda se encontra oculto pelas malhas da mentira, ilusão e descaso consigo próprio.

Se amar mais...


Jorge C. Neves

09/05/2022

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...