Conhecido por Tapí´Hí (pronuncia-se tapí), curandeiro e chefe maior de sua tribo, famoso por propagar profecias e conhecedor das mudanças de tempo e estações, quando irá chover fortemente e quando a seca vai passar e secar as pastagens e toda a agricultura construída.
Respeitado também pelos dons da vidência e da comunicação com os Espíritos dos Ancestrais e dos outros que ninguém conhece bem e nem ousam nomear.
Estando de pé frente a frente com um grande conhecido, um ser de muitos metros de altura, de pose e semblante imponente comparado a Tapí´Hí, mas com fisionomia benevolente e um ar resignado de alguém que deve auxiliar e passar conhecimento para um outro que não tem a capacidade plena de entender a mensagem propagada.
Este Ser das estrelas o cumprimenta como de hábito, e deixa em suas mãos algumas sementes, tiradas de algum outro lugar na galáxia, sementes de cor verde esmeralda, que brilham ao contato com o campo do ser, do alienígena em sua frente. E este assim o fala: “Tapí´Hí, já se passaram muitas luas e muitos sóis desde que eu aportei aqui e conquistei seu olhar e amizade, trago comigo algumas plantas, umas ervas que te serão necessárias nos processos pelos quais a sua tribo irá passar, talvez estas dádivas vindas de tão longe lugar possam abrir caminho perante a ilusão e o desespero que vocês, como humanidade, se encontram. Mas ai daquele que o usar e tocar por puro benefício, sem olhar o todo a sua volta, e sem respeitar os espíritos daqueles que guardam os segredos das florestas e das matas, dos elementais que se abrigam dentro destes vegetais, e de todos que possam ser acolhidas por este olhar. Olhe-o bem! Pois seu uso pode ser a ruína e tragédia de muitos e de muitos grupos e tribos que nada de concreto tem a partilhar. Que assim seja.”
Tapí´Hí se utilizou da erva quando sua situação e da própria tribo estavam em perigo, nas poucas vezes que a ferveu e as portas do inferno e do céu se abriram, soube tirar proveito e retirar dali tudo o que necessitava para superar a crise e as tempestades que teimavam em cair sobre aquelas cabeças de parcos recursos e pouco conhecimento da realidade do Todo.
Determinado dia, estava Tapí´Hí ensinando discípulos que poderiam manter a linhagem dos conhecimentos da tribo e da sabedoria que por ele foi trabalhada, quando um ataque feroz, uma implosão de faíscas de energia dentro de si, fez despertar nele uma saudade desconhecida dos campos elíseos deixados para trás e que agora pediam o seu retorno à sua pátria deixada. Liberando assim seu corpo físico, sua mortalha liberada, Tapí´Hí se foi abrindo o caminho para os outros que viriam atrás.
Muitos se utilizaram da força, da erva de várias maneiras, usos e experimentos foram feitos ao passar do tempo, alguns benéficos para a maioria, outros desastrosos. Alguns conseguiram se sintonizar com aquele Ser, e por este foram guiados em direção a um campo maior de saber e liberação do passado e de suas raízes; outros falharam e por ela foram consumidos e enterrados.
Dizem que a erva foi tomando forma e consciência ao passar das eras, e assim escolhia quem deveria guardar seu segredo e para quem deveria ser administrado. Havia um intercâmbio entre a consciência do vegetal e a consciência humana que seria seu portador, como uma simbiose. Ao tomar consciência de si, visto que a erva não era daqui e partilhava uma evolução distinta de seus irmãos de flora terrestre, tomou gosto e se apoderou de espíritos incautos e inocentes das responsabilidades e perigos, consumindo-os em si. Há relatos dos corpos estendidos e enrolados nos cipós altos das grandes árvores, e ali deixados como aviso e após jogados na lama movediça para que virassem adubo orgânico e pagassem o tributo da ignorância, entregando ao solo, às raízes, a sua forma. Gritos ainda se ouvem, nos ecos dos grandes vales e montanhas, daqueles que ainda estão enrolados na cadeia de cipós embaixo do solo, dentro da terra.
Tempos após, quando a mata e a terra já tinham sido conspurcadas e o homem branco adentrou pelas trilhas ocultas e escondidas, já também devassadas pelas pisadas de guerras e de cavalos, e do embate doentio entre povos irmãos, por estas trilhas manchados de sangue escuro, foram se abrindo estradas, trilhos de trem, túneis e passagens gigantes, e onde era verde tornou-se cinza pálido e desbotado, com ruídos e buzinas estranhos aos antigos sons dos pássaros e macacos, e de toda fauna que antes dominava as terras consideradas “ inóspitas”.
E lá de dentro se trouxe a amarga erva, que foi presente de um Ser de outro orbe, de outra existência, e aqui foi misturada, processada, envolvida com outra e outras ervas daqui, e assim foi se processando esta agonia mútua de um ser vegetal alinhado com interesses obscuros e mesquinhos, daqueles que só veem ouro e poder, por onde tocam e por onde caminham.
O Simbionte
Tal erva, assim a duras e sangrentas penas adquirida, começa a tomar forma dentro da consciência de humanos que a tocam e buscam, sem nem saber o porquê.
Entrando pelas vielas escuras da inconsciência, subindo até o topo da montanha do ser, do existo, tomando conta e caminho de processos, neurônios e sinapses, se enraizando pelas linhas nervosas do sistema, tomando espaço por linfas e vasos sanguinolentos, tomando os olhos de sua “vítima”, de seu hospedeiro, e comandando-o assim de dentro, e cada vez mais colocando para dentro o fel e amargor da bílis de outro ser vegetal.
Nos contos e antigas aventuras e viagens marítimas, dentro das grandes caravelas, diz-se que depois de uma bruma, um denso nevoeiro que tomava conta do barco e da tripulação, muitos marinheiros ouviam o “canto da sereia”, onde aturdidos, encantados e desesperados, se jogavam no mar esperando encontrar a fonte de tão doce e bela sinfonia, assim se afogavam em sua busca e desapareciam. Se não fossem alguns marinheiros precavidos e de íntimo sólido e forte, que ao tomarem conta da situação amarravam os iludidos no mastro até que o encanto passava, e o nevoeiro se perdia, muitas navegações e descobertas nem teriam chegado ao seu rumo e todos estaríamos afogados agora.
Pois deixando de lado sua vida e suas responsabilidades, passando o poder de suas escolhas para o alto e para ninguém, vagando desiludido e iludido pela fantasia do que quer ver, cheirando a podre e erva, e manchando de verde por onde toca, aonde pousar, de seu corpo raízes grossas e ferrugentas saem de braços, pescoço e pernas, pelos buracos do calcanhar que nem mais sentem. Dispostos ao deus-dará da inconsciência, do inconsciente infantil e assim infantilizado perante o Todo, desmaia no torpor do sono leve daqueles que perderam sua alma pela embriaguez do poder, da fama, e do medo. No monstro de Hyde assim se tornaram.
Assim a erva traça seu plano de limpeza e colheita, de adubação e separação, de joio e de trigo, todos dentro de si, e quem não a vomita, não a jogue para fora, a ela se grudará e do vegetal se encaminha para que se afogue na inconsciência verde do desespero e da ilusão. E como o grande Ser que lá atrás aqui aportou, ofereceu, direcionou e avisou, chegará a hora em que daqui será novamente retirada, para que aqueles que dela abusaram, violentaram, e se embriagaram, possam permanecer como sinal e aviso, como sombras perdidas tentando se achar, atrás das sereias de nenhum lugar.
Jorge C. Neves
13/05/2022

