domingo, 6 de abril de 2025

A Navalha do Corte, ou Corte da Navalha

 


         Seria o corte da navalha suficiente para separar-se do Pai, o tal da Lei? Ou seria a navalha, instrumento estético masculino, o falo ereto que cortaria a dependência imagética da mulher?

         Seriam ambos instrumentos, forças que se coadunam em sentido de separar-se Ser! Ser no sentido mais “robusto” da palavra, aquela palavra contida no âmago deste... aquele que necessita de uma força, um amparo, um empurrão que seja, que o levaria a (re)encontrar-se consigo, com o Self.

           A navalha como imagem simbólica – simbiótica da passagem, da emancipação da mulher do seio materno-menina; o que seria isso, o primeiro corte é aquele que nos faz gente, que nos castra do seio materno, da ligação unilateral entre o filho e a Mãe, a grande mãe que engloba a tudo e não nos permite ver-nos seres em si separados da fonte primordial e materna. A mulher tem dois cortes, um de nascença, e outro que ela mesmo fará, se puder e ansiar separar-se do Pai, o ser supremo por ela idealizado, o qual a impede de se ver livre e bem com outro alguém.

         Há uma marcha, um símbolo de emancipação feminina com a tal da revolta do cigarro; a qual só serviu como propaganda para a indústria de tabaco que queria expandir seu consumo às mulheres, e no fundo era só um pequeno falo aceso na boca destas... No entanto, e se fossem navalhas? As navalhas abertas, instrumentos dos barbeiros da época, por posse dessas mulheres que se serviam como corte, o corte do fio da barba do pai (nessa época muitos homens usavam barba); talvez virasse uma carnificina na época, não sei...

         Mas o fato é que a navalha corta, rente, precisa, deixando apenas os poros abertos como se algo estivesse antes por ali, e ninguém mais se deu conta, ou viu. Toda mulher sofre, assim como o humano, há uma dor, um sofrimento contido, existe o corte original, mas há um outro que ela mesmo amputa, ou deveria, tornando-a mulher e livre... Mas essa dor que oculta o caráter violento da navalha, do corte em si, da autonomia em poder fazer-se (ser) autora do ato, que a configura como ser separado da matriz materna, da mãe opressora, e torná-la aquilo que é, sem mais os ditames do pai, ou da sociedade que a coaduna e também a bajula, de uma forma ou de outra, é viver sem os penduricalhos sociais que a enfeitam e, ao mesmo tempo, restringem.

         “Toda mulher é um corte”, seria esse Corte, força suficiente para que ela se almeje independente das forças que aí estão? Caberá a ela a marcha de sua libertação, se ela puder, se ela quiser: Ousar.


Jorge C. Neves

06/04/2025

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...