Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama
e me clama,
Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha
angústia, solidão e sofrimento...
E eu cedo por seu desejo de recriminar alguém, alguém que
seja o Outro, que não seja você...
Você me adora e posso provar, sabe as músicas que mais tocam?
As sofrências sertanejas: o prazer de ter um outro para
culpar das tuas dores e tormentos,
Sabe aqueles cantores das antigas? Repletos de músicas de
paixões não correspondidas, traições e despedidas...
Tudo desespero, tudo eu, tudo por mim...
Mas não sou feliz assim, poderia eu ser outra coisa se você quisesse,
ou desejasse, como diria Lacan,
Mas estou preso a teu desejo de desesperar-se e se lançar em
lamúrias sem fim...
Que pena, eu poderia ser: alegria, esperança talvez, não sei...
Você não me permite ser diferente, mas para isso você deveria
deixar de me amar,
Assuma-se, olhe a outra face, olhe seus erros e sentimentos
mais profundos,
Ache o verdadeiro culpado da tua história, dos teus sofrimentos
derradeiros...
Também não me sinto bem em exercer esse papel: Desespero,
Mas como você ainda precisa de mim tanto assim, continuarei desse
jeito, até você me assumir,
Assumindo-se então, quebre os muros e cadeados, derrube todos
os armários,
E boa sorte no seu aprendizado e autoconhecimento,
Com muito Prazer, do seu terno amigo:
Desespero.
Jorge C. Neves
03/09/2025

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