quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Um Conto de Desespero

 


Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama,

Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia, solidão e sofrimento...

E eu cedo por seu desejo de recriminar alguém, alguém que seja o Outro, que não seja você...

Você me adora e posso provar, sabe as músicas que mais tocam?

As sofrências sertanejas: o prazer de ter um outro para culpar das tuas dores e tormentos,

Sabe aqueles cantores das antigas? Repletos de músicas de paixões não correspondidas, traições e despedidas...

Tudo desespero, tudo eu, tudo por mim...

Mas não sou feliz assim, poderia eu ser outra coisa se você quisesse, ou desejasse, como diria Lacan,

Mas estou preso a teu desejo de desesperar-se e se lançar em lamúrias sem fim...

Que pena, eu poderia ser: alegria, esperança talvez, não sei...

Você não me permite ser diferente, mas para isso você deveria deixar de me amar,

Assuma-se, olhe a outra face, olhe seus erros e sentimentos mais profundos,

Ache o verdadeiro culpado da tua história, dos teus sofrimentos derradeiros...

Também não me sinto bem em exercer esse papel: Desespero,

Mas como você ainda precisa de mim tanto assim, continuarei desse jeito, até você me assumir,

Assumindo-se então, quebre os muros e cadeados, derrube todos os armários,

E boa sorte no seu aprendizado e autoconhecimento,

Com muito Prazer, do seu terno amigo:

Desespero.

 

Jorge C. Neves

03/09/2025


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Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...