quinta-feira, 5 de junho de 2025

Meu amigo Charlie

 


                Ehhh... meu amigo Chá... Charlie Brown fez 75 anos de história, talvez tenha sempre tido esta idade no desenho, Charlie não era criança, na mentalidade, nem adulto, muito menos idoso, Charlie era alma pensante dentro de um mundo robótico, preenchido por vozes distorcidas e murmurantes, sem face, sem cor, que nada faziam... E se, no fundo, Charlie Brown era um mapa mental de alguém? Fruto de uma imagem lúdica de como a psiquê se vê, ou se organiza, diante de um caos des-organizado que procura sentido, que está atrás de amor?

                Charlie, assim como um filósofo ateniense, vivia em profunda reflexão diante do sentido do mundo: sou real, ou personagem de um desenho animado? Era Sócrates em seus infinitos questionamentos, era Aristóteles em seu modo peripatético de filosofar... era Zenão e vivia no pórtico da vida, com medo de arriscar, estava sempre caminhando, sempre se questionando. Enquanto os outros personagens eram fixos, repetitivos, só ato, nenhuma reflexão; assim como os npc de hoje, só uma forma autômata de existir, cada qual uma peça discordante de você... Charlie Brown.

                Havia Lucy, a egocêntrica e narcísica, que sempre frustrava as expectativas e tentativas de Charlie, Linus aquele que não cresceu e andava de lá para cá com um cobertor de orelha, ou na orelha... assim como Charlie caminhava filosofando, Linus caminhava sem expectativa de nada, um dedo na boca, sem preocupação... Schroeder, o pianista, com seu piano “imaginário”, tocava, tocava e tocava, mesmo se destruíssem seu instrumento, ali, de repente, surgia outro, sempre olhando para baixo, para as mãos , para um nada... enquanto Lucy se espreguiçava em cima de seu instrumento, buscando uma face, atrás de um olhar, que ela nunca tinha... Havia Snoopy, o alter ego de Charlie, sua função imaginativa em ação, tudo aquilo que Charlie não podia, Snoopy fazia... voava em sua casinha de cachorro, atirava em inimigos do ar, jogava tênis, jogava tudo... não falava, fazia.

                Snoopy tinha outro amigo imaginário (?)... Woodpecker, um pássaro amarelo que lhe fazia companhia, seria a alma a companheira imaginária de Snoopy, ou tudo aquilo que Charlie era, e não conseguia visualizar, ser, tentar? Este pássaro dourado trazia a simbologia da morte, a certeza da vida, assim como Snoopy dormia, deitava sobre a cumeeira de sua casa; cumeeira é o ápice do telhado, neste ponto Snoopy adormecia, assim como Osíris na tumba, seu corpo recomposto por Ísis, menos o falo, que se perdeu... ou se transformou em Woodpecker e o acompanha de outra maneira?

                Ah, então seria Charlie psicótico e vive com amigos imaginários e um cachorro que voa? Diriam alguns, não! Charlie vê o outro, aliás, o único que se interessa realmente por alguém, ali é Charlie... Seus professores, os adultos, são só vozes murmurantes, como bebês que resmungam e choram, não há corpos nem faces, só pés, o olhar de Charlie e sua turma, é todo voltado ao alto, ao inacessível, ao desconhecido, estranho, e ininteligível... ninguém sabe o que querem... deles, Charlie nada pode esperar, entender ou mesmo, pedir...

                Charlie é uma sombra que se arrasta pedindo auxílio, compreensão e sentido... seria o Self junguiano tentando se recompor, se re-encontrar? Seus planos eram sempre frustrados, Charlie não vivia uma expectativa positiva, seus dias eram de fracasso e tristeza, a qual era sempre sublimada por seu espírito compassivo, penetrante, especulativo diante da miséria emocional dos outros, que nada viam, nada sabiam, estavam presos em um ciclo infernal de faça, faça aquilo, seja algo, seja alguém, não seja.

                Tem um episódio em que Charlie quase conseguiu, quase alcançou o topo de ser visto e admirado por todos, era um jogo de futebol americano, Charlie era o dono da bola, aquele que iria fazer o tal gol, o da vitória sobre os reles mortais da inexistência, o jogo estava ganho, estava na mão... ele iria chutar a bola, e Lucy a separa, retira, corta... Charlie cai ao chão... não há mais nada e nem ninguém, todos se vão, fica Charlie... no chão. Contente? Não, mas Charlie não desiste, continua, segue, se levanta, se recompõe e age: assim como um pássaro, Woodpecker abre suas asas e voa, acima da matéria do mundo, dentro da casa, por dentro do coração.

Obs.: em um episódio simbólico, todos entram na pequena casinha de cachorro do Snoopy (Charlie? É você?) ... tudo é grande, imenso, colossal, salões e escadarias, quadros, um museu... memórias, lembranças, arrependimentos... há tudo ali, tudo guardado, tudo rompido, será que por isso Snoopy, geralmente, dormia lá fora, em cima da casa, longe da entrada da alma, do altar do coração?

                Se você for Charlie, arrisque-se a entrar na casa, na pequena casinha, há espaço, e muito! Muito espaço, há um lar de volta para ti, basta olhar, romper a tristeza que te afasta de si e adentrar em tudo aquilo que escondes de si mesmo e que necessita vir à tona, para fora da escuridão... revele-se:

         Charlie Brown.

 

Jorge C. Neves

05/06/2025


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