quinta-feira, 22 de abril de 2021

O Amor nasce na Imperfeição


 

“Se é perfeito, então eu amo...”. Parece uma equação tosca e irreal, neurótica e vazia, mas esta questão vive e sobrevive na alma e na mente de muitos que desconhecem os seus instintos e fogem de suas máscaras, medos e temores, que se escondem de suas sombras.

O Amor só nasce e brota do imperfeito, do encontro com as próprias falhas, fraquezas, mazelas, o Amor só pode existir quando há o encontro, o abraço com todos os aspectos que me repudiam, que trazem asco, dor e miséria emocional.

O Amor é envolvimento com aquilo que me traz fragilidade, com aquilo que é real, e se é verdadeiro, íntegro e real: há falhas, há erros, há humanidade em toda a sua forma e esplendor, com sua miséria e sua mais profunda dor.

Amor se vive e se reconhece então no abrigo do despossuído, no afeto ao abandonado, no colo do sofredor, amor é acolhimento de quem sofre na certeza do abandono ou da própria solidão.

Amor não se reconhece na perfeição, coisa que não existe, é ilusão, fagulha, miragem, é neurose para o culpado, martírio para o orgulhoso, fuga para o medroso. Amor só se conhece na própria dor, no buraco oculto, escuro e frio, nas sombras que pedem e demandam Amor de mim. E se eu mesmo nego e repudio, então não há Amor, não há espaço, só há Vazio.

“Se é perfeito, então eu amo”. Várias vezes escuto esta frase quando atendo, da filha ou filho que questionado sobre as imperfeições e falhas de seus pais, me responde assim: “...meus pais são perfeitos, eu os amo...”. Tanta infantilidade e vazio nesta frase, tanta fuga e tanta solidão da própria criança interior, abandonada e sofrida, querendo ocultar sua própria dor em figuras autocriadas na ilusão de poder não se encontrar jamais.

Nossos pais são imperfeitos, no sentido mais profundo da palavra, são todos imperfeitos, só seres humanos tendo sua própria experiência, sua própria vida. Não são e nunca foram perfeitos, esta ânsia por uma suposta perfeição não existe, é irreal, nasce do vazio de estar só, plenamente abandonado de Deus, do Divino, como o indivíduo se encara, se sente.

Quando eu não consigo encarar a humanidade assim, a imperfeição sem fim, me anulo, e crio deuses, falsos deuses para substituí-los em mim, em minha própria mente, crio deuses perfeitos e irreais que me amam, e sendo deuses perfeitos então eu amo, eu posso amar.

“Amar o que é perfeito é fácil, difícil é Amar de verdade, e de coração.”

Como minha mente é povoada por falsos deuses incorruptíveis, não me dou o crédito de olhar para mim mesmo, me encarar e observar meu lado sombrio, minhas falhas de caráter, minha hipocrisia e demagogia, meu inferno pessoal. Fujo desequilibradamente, como um bêbado sem rumo e me jogo nos braços vazios de um falso deus, criado por mim, que chamo de pai ou mãe substituto, dos meus próprios pais verdadeiros, que foram engolidos por minhas próprias sombras, não os reconheço mais como verdadeiramente são.

Abafo minhas crises de identidade, mágoas, ranços, invejas, decepções, e crio uma falsidade pessoal, um boneco perfeito de mim mesmo, e falo assim: “meus pais são perfeitos, eu os amo...”. Difícil é perceber que esta frase só esconde o deboche que criei para mim, eles não são perfeitos, todo filho(a), toda criança sabe as sombras dos próprios pais, as viu, sentiu na própria pele e na própria alma o chicote doloroso do recalcado, da dor imposta a outro ser humano, sabe perfeitamente o lado oculto que o genitor e genitora escondem. Sabe....

Mas cala, aprende a calar e esconder, a criar um falso deus ou deusa de obediência irrestrita, perfeitos e prontos a serem amados e acolhidos, figuras patéticas sem vida, sem humanidade, sem coração.

É preciso escancarar esta porta, e encarar as sombras dos próprios pais, suas dificuldades, mazelas, seus horrores de frente, é preciso desnudá-los e vê-los em sua própria face, para que assim também você possa se ver face a face, se encarar com sua nudez, seus desequilíbrios, seus medos enfim.

Só assim, e só assim, pode o Amor brotar, surgir da lama pútrida e escura como a flor de lótus, e brotar com seu esplendor, isso é Amor, amar aquilo que se esconde, amar humanamente, amar a fragilidade, amar o que é real, amar.

“O Amor se esconde nas falhas e imperfeições do que parece ruim, mas só quer ser amado, só quer ser acolhido por ti”.


Jorge C. Neves

22/04/2021

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...