sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

O Mágico de Oz


   
  Esta é uma análise do famoso conto do Mágico de Oz, e a eterna luta de alguém-conhecido para se aceitar como autônomo-inteiro, reconhecendo suas partes desconexas e reconectando a sua simbologia num todo harmônio-pleno-inteiro: novamente...

    Nossa história começa com Dorotéia (aportuguesamento de Dorothy) em sua casa no campo... Dorothy (chame-a como quiser) é uma jovem adolescente descobrindo a vida e redescobrindo Ser, diante de uma casa vazia, com figuras parentais ausentes e um sentimento de solidão e um vazio que nada o preenche...

     De repente, um tufão, um enorme redemoinho se forma no céu azulado e Dorothy se agarra ao seu cachorrinho – seu lado animal ausente, separado de si e muito inofensivo... Enquanto Dorothy não se tornar mulher e assim, assumir também seu lado animal, o ser irracional que a faz “selvagem” – uma mulher Real, seu lado animal estará apartado de si e também sofrendo de um alimento inacessível. Só a consciência pode alimentar tanto o lobo, quanto o carneiro-poeta, tanto a escrita-poesia-arte quanto a ação direcionada, o ato de vir a ser, se redescobrindo sempre...

    Nesse animalzinho também se encontra a sexualidade reprimida da infância surgindo já em Dorothy jovem-adolescente, é o cãozinho que está tomando forma, crescendo, e assim se rebelando da “casa” paterna, também época de conflito extremos, existenciais e luta por autocontrole (coisa que o “pai” não deseja, e a mão não quer...).

    Nesse ínterim... vem o tufão, a força da natureza, da mudança, os conflitos tomando forma irreversível e tirando Dorothy definitivamente do infantil, do lúdico, direcionando-a para a própria vida.

         Esta mudança a coloca em um reino diferente, supostamente encantado, feito de tijolos amarelos: a prosperidade agora precisa ser alcançada, não basta ser “eu”, é preciso ganhar a vida, ter o fruto advindo de seu trabalho-duro-diário; momento de decisão profissional ou rumo como figura autônoma no ambiente social em que habita.

         A suposta nova-velha casa de Dorothy cai sobre uma velha bruxa e a mata... A velha consciência que precisa ser demolida, para que uma nova surja dos escombros da velha, Dorothy está em um processo de transição emocional, e este processo é doloroso para uma menina tornando-se mulher...

        Agora Dorothy se vê sozinha nesta outra terra, e precisa se encontrar: achar um novo lar, para isso ela pega os antigos sapatos da “velha que morreu” e os calça (é a partir dos escombros do passado que me ergo e sigo em frente), e nisto Dorothy segue à procura do Mágico de Oz, a suposta Voz-consciência superior que a levará de “volta para casa”. Dorothy ainda não se encontra, não percebe que o passado ficou para trás, não há retorno para o velho lar, é o novo que a espera lá na frente.

        No trajeto, ela se encontra com outras figuras: o espantalho, aquele que reclama que não tem cérebro: não pensa; o homem de lata, que se julga sem coração – sentimentos; e o leão, aquele que não se percebe corajoso.

        Vamos focar agora no leão, como sendo o “totó” transformado nesse momento; aquilo que era um animalzinho torna-se então um leão, mas ainda inseguro, inconsequente, sem domínio nem de sua força e nem de sua consciência. Dorothy terá que guiá-lo nesse momento em direção ao “mago”, para que tanto a coragem se encontre, quanto ela possa absorvê-la dentro de si e alcançar uma transformação-libertação da casa paterna.

         Todos agora caminham em direção à Cidade de Esmeraldas, a de cor verde, todos a procura da Verdade e da própria Cura. O suposto local que os iluminará e os libertará do vazio da consciência, integrando todas as partes em uma só. Veja, cada um procura uma cura para si, mas todos ali, na verdade, são só um.

         Dorothy é a consciência procurando se encontrar, se integrar (isso ela ainda não desconfia), e para tal ela precisa auxiliar cada aspecto que percebe separado de si mesma, sem compreender que ajudando-os e levando-os consigo para o Mágico de Oz, estará no fundo se auxiliando.

        Neste caminho, de muitas perdas e incertezas... Perda da inocência, do aspecto lúdico do mundo, da fantasia de estar-se protegida no colo paterno, do ambiente dos pais, tudo isso vai se desfazendo no caminho.

        E para isso, o leão redescobre-se corajoso, o homem de lata com sentimentos, com coração; e o espantalho com inteligência, com raciocínio e com lógica atuante. E Dorothy se vê em cada um deles, cada aspecto deste é percebido, nesse momento por ela, como sendo uma coisa só; neste ponto ela se aceita, é o início do processo de autoaceitação.

         - Leão-totó, você se diz medroso, mas é o teu aspecto feroz que me trouxe calma, empatia, paz, harmonia, quando você ainda era só um cachorrinho, bem pequenininho... E isso é coragem, muita coragem diante dos desafios que haviam lá fora...

         - Espantalho, você se diz sem cérebro, mas foi a tua perspicácia e inteligência que nos trouxe para o caminho certo, que não nos deixou se perder pelas obstruções à frente, ou atalhos que apareciam diante de nós... Foi a sua astúcia que nos protegeu e nos guiou sempre! E isso é sabedoria, e inteligência...

        - Homem de lata, você fala que é sem coração, mas o teu amor nos guiou e nos salvou, quando estávamos perdidos lá atrás, desesperados, sozinhos e com muito frio, foi o calor do teu coração que nos aqueceu e se refletiu nessa sua armadura de lata: aqueceu tudo ao redor e deixou tudo quentinho... Foi o teu amor! O amor do teu coração...

         - E Dorothy (momento de falar consigo mesma) ... se olhe, se perceba por inteira! Veja como tudo é um, é somente a sua presença sendo “consertada”, assimilada, recorrigida... Há uma Presença maior aqui que te guia, ainda não há vejo, mas agora, já a percebo.

        Tendo se aceitado, Dorothy e seus comparsas rumam agora direto à Cidade prometida, ao encontro com o tal Mágico de Oz. Atravessando o portal da Cidade da Verdade (esmeraldas), Dorothy necessita aglutinar-se, aceitar o leão adormecido, a fera que habita em si, a coragem indomada, a mulher selvagem (o “pulo” para o Real, o real de si, a mulher que jaz em mim sem fantasias e sem as obstruções herdadas pelos pais, pelas minhas histórias passadas).

        Tendo domado o leão, se aceitado livre para impor-se diante do mundo e fora da casa dos pais, sabendo sim, que há uma fera interna e esta precisa ser alimentada de alguma forma. O outro é o homem de lata, o “só razão”, em contraposto ao espantalho, o “só sentimentos”, um precisa do outro, mas cada um só enxerga o que não tem, e não valoriza o que possui. Como aspectos separados, Dorothy agora precisa se colocar (com a força do leão) e juntar espantalho-cabeça com homem de lata-coração.

         Nesta luta da natureza, por isso é necessário a ferocidade perdida, diante de todo sofrimento e dor, Dorothy recompõe-se e unifica-se, aceitando as dores emocionais do passado e as ilusórias-perdidas, e os pensamentos vazios, desgovernados, abdica-se do controle sobre a mente, de modo que o mental possa operar sintonizado com o emocional (mente-coração).

         Diálogo desta transição-unificação:

       - Espantalho-cérebro-inteligência olhe agora para o Homem de lata-sentimento-coração! Olhem-se os dois e separem-se de suas vestes-fantasias-vestimentas. Espantalho, todo seu corpo é só palha-vazio; homem de lata, por fora é só lata-carapuça-vazio também... Dispam-se de suas fantasias e integrem-se num só, um só ser, um só corpo-consciência...

        Tendo unificado os três aspectos, resta o quarto (ela mesma), a consciência de vigília, para isso ela se orienta em direção ao tal Mágico, o de Oz... Chegando nele, a Voz que retumba, esta ordena que para Dorothy retornar ao velho lar (antigo desejo dela), ela deverá matar a outra bruxa, outra porção ainda desconhecida da consciência que se move nas sombras, e pela qual Dorothy estremece de medo.

        Aqui se apresenta uma bifurcação de sentidos, se Dorothy obedecer a Voz e aniquilar sua consciência, virar as costas para a sua sombra, nunca crescerá; permanecerá um ser infantilizado (a eterna adolescente) e se tornará um fardo para alguém carregá-la no colo, um substituto paterno sem fim.

         Tomando um outro rumo da história agora, e imaginemos que Dorothy vai atrás da suposta bruxa-sombra, e a reconhece no espelho (se reconhece), e com ela “dança”: se aceita no mais profundo do seu ser e restabelece uma nova fusão de consciência, integrando-se com os aspectos anteriormente desconhecidos e sombrios.

         Mas antes de rumar para este encontro, imaginemos que Dorothy se vira para o Mágico, e o desmascara, tira a máscara do pequeno ego, da falsa consciência, vai atrás das cortinas e descobre um nada... vazio, não há ninguém por lá.

        Rumando para as cavernas escuras do inconsciente, Dorothy se encontra com sua suposta rival, o desconhecido que sempre a seguia, e supostamente a sabotava:

         Vamos imaginar o diálogo:

           - Bruxa, vim aqui por ordem da Voz, para matá-la...

         - Matar-me eu? Quem (me) ousaria assim?

         - Eu...

         - Quem???

        - Cala-te menina, que agora que a mim viestes, serei eu que a te subjugarei e te lançarei às sombras do oculto e do desconhecido...

         - Não, tenho em mim a força de um leão e sua coragem, o coração misericordioso de um homem de lata, que brilha mesmo no escuro, e a razão e inteligência do espantalho, sua palha e sua cura! Mas mesmo assim, me falta a sua força e sua presença em mim...

         - Bruxa, escute-me: eu te aceito! És parte inseparável de minha consciência, não se esconda, agora eu estou aqui!

        E a Bruxa se espanta e se sacode querendo fugir, mas Dorothy é mais esperta, ela está na luz e vê adiante, e se joga em direção às sombras e a abraça fortemente, não a solta, a incorpora em si, sem medo da dor, sem medo de sofrer um abandono que seria só seu...

         Neste abraço apertado, a consciência se funde novamente, uma luz preenche a caverna escura da inconsciência e Dorothy se vê refletida em um espelho, um enorme espelho de esmeraldas e cristais...

        Neste momento, ela olha uma Presença, a face da Consciência maior refletida neste espelho, antes era só uma voz, agora é um Todo...

        E a Consciência lhe diz:

         - Muito bem, pensastes rápido e incorporastes aquilo que antes tanto temia, és digna de atravessar o Caminho, recompor os teus passos, pisar na Terra, corpo da Mãe Terra, e sentir as batidas do próprio coração, é estar viva novamente, sem sonhos vazios, agora é Vida por inteiro...

        E Dorothy agradece, dá as três batidinhas agora com os pés descalços no chão (não precisa mais dos antigos sapatos gastos e furados), entra em contato com o solo sagrado, às raízes mais profundas, lugar dos ancestrais e se entrega à sua Consciência Maior, em uma profunda Unificação:

        - Agora restabeleço a minha cura, me reorganizo e entro em contato com o solo, a Terra, sinto minha presença viva aqui, e assim, ergo meus braços para o alto, para o Céu, e me expando sem fim...

         Tornando-se assim: Mulher.

Jorge C. Neves

10/01/25

Um Conto de Desespero

  Me chamam de Desespero, você precisa de mim, me ama, me chama e me clama, Mas eu poderia não existir assim, você pede por minha angústia...