sexta-feira, 25 de julho de 2025

A Vingança de Alice

 


            “Essa é uma história contada por mim, Alice, e não por um outro que a contou por mim... Assim, esta é a história de quando eu passei por um Espelho, mal sabendo que havia um outro Espelho, um côncavo e o outro convexo...

            Esta história se passa quando eu era apenas uma menina inocente e tola... Bom, tola eu continuo sendo e sempre serei, isto é algo que aprendi com a velha raposa (hahaha...), mas isso é outra história... Só sei que num belo dia atravessei um espelho e assim começa:

         Entre um espelho e outro, há um espaço – cavidade – abrigo... Neste útero sagrado, diríamos assim, é um vácuo entre mundos, os vivos chama de sonho, os mortos de Além... cada um o enxerga de acordo com sua perspectiva, uns têm a vista turva, outros a percepção bem nítida...

            Só sei que enxerguei várias portas, inúmeras delas: grandes e pequenas, tão altas quanto um arranha-céu, ideal para gigantes, e outras bem pequeninas, perfeitas para formigas... me enamorei com uma no chão, bem pequena também, não do meu tamanho, mas pensei se ali estava então tudo era possível, afinal, como seria ser como meu amigo Gulliver, bem pequenino e me encontrar com gigantes do lado de lá? Pois sim, pois não... a passei, e o que vi foi um grande tabuleiro de xadrez, com muita mata envolta...

           Mal sabia eu, que o tabuleiro era meu, as peças: só minhas, o jogo: todo meu, entretanto, havia um outro que jogava comigo, esse outro não era eu..., mas Outro, outro, outro o... Era um outro... alguém, fato que eu não controlava as outras peças, elas se mexiam sozinhas, quem as controlava eu não via, mas sentia: o sentia... em mim, nos movimentos que meu corpo fazia, no controle que me faltava, nos anseios que eu não tinha, nos medos que me cercavam, os que eu não via, ou não sabia que eles sempre estavam lá... me esperando de algum lugar...

        Neste jogo me vi diante do Rei, e de costas para a Rainha branca, a rainha má... não sabendo o que fazer, nem para onde ir, olhei para baixo... para o espaço branco – escuro – vazio – diante de meus pés... e lá percebi uma toca, não toca de coelho, mas de raposa! Toda raposa é velha, sábia e atraente... Nunca confie numa raposa! Ou melhor, confie e desconfie também... Sabe essa história de “você é responsável pelo que cativas...”, historinha de raposa para manipular o Pequeno Príncipe... mas esse aí todo mundo engana, não dá para levar em conta.

           Bom, em frente à raposa, ela me olha com olhos de lince – de águia – de pavão... todos focados em mim, na minha pequena pessoa... Ela fumava uma pipeta, tão fina e longa quanto um sonho qualquer, de modo que a fumaça não entrava pelas suas narinas, ou focinho... essa pipeta poderia virar caneta, pincel, cetro, sei lá, qualquer coisa que ela poderia imaginar-se sendo...

          Ela me mostra outro caminho, galerias imensas pelos fundos, pelo subsolo do jogo, salões empoeirados, abarrotados de livros: velhos e amarelados, muitos nunca viram a luz do sol, muito menos a do dia... Pergunto-lhe o que é isso? Ela me aponta para lá... para um espelho de pedras do outro lado do salão, coberto por musgos antigos, arcaicos, gigantescos, pré-históricos... e uma lagoa límpida, com aquele ar de sagrado, que cheira a rosas, como um perfume que me enebria o ar...

            A raposa:

            — Do lado de lá há o outro...

            — Se eu entrar lá, serei eu mesma ou um outro?

            — Nem um nem outro...

            — Como assim?

           — Alice, aqui não há respostas, pelo menos aquelas que eu possa te dar, mas há caminhos – processos – reconhecimentos – portas - fugas – janelas & saídas, bifurcações...

            — Todas aqui... todas também lá... agora: escolha!

            Então pus-me a refletir, a pensar, sentei sobre uma rocha do lago e me olhei na superfície deste... ou seria ali outro espelho? E o que vi... ou me vi, me fez pensar melhor na minha trajetória, aquela que me trouxe até ali, até aquela raposa, até aquele buraco e diante deste espelho... sim! O lago também me reflete, também espelha algo de mim... o que será que se encontra lá no fundo?

            Pois... mergulhei! De roupa e tudo! Com um supetão me joguei no fundo desse lago, havia muitas pedrinhas brilhantes, com todas as cores e fogos internos, elas iluminavam o ambiente, toda a minha escuridão, e me lancei nesse jogo de brilhos e fantasias, luzes, cores e paetês... mergulhei mais fundo, cada vez mais... fundo. Além do lugar em que a voz da raposa pudesse me alcançar...

            E nesse fundo, nesse espaço de puro vazio e escuridão... me encontrei com um Outro... O Grande Ó... gosto de chamá-lo assim, com um acento agudo no Ó! Parece um chapéu – lacinho – gorro – charuto... chamando-O então falei:

            — És Tu aquele habitas nesse Oceano? Ou é tudo fruto da minha imaginação?

            — Se você fruto, eu sou a árvore, se és semente eu sou o plantio, se és floresta, eu sou o oceano que a circunda, estou tanto dentro quanto fora, permeio cada célula, cada espaço do teu ventre, não há nada de ti que escapas de mim... Se és imaginação, então serei eu o que a crio...

            — Não posso vê-lo, só senti-lo... como se uma corda se esticasse e assim a tocasse – vibrar-se – sentir-se – realmente: amar-se..., mas tudo isso, não é uma escolha?

            — Minha ou sua?

            — Nossa...

            — Sendo assim Alice, mergulha, mergulha mais... até que você se encontre com sua canção...

            E mergulhei então, percebi um outro buraco, ou um alçapão embaixo de meus pés, e lá adentrei... sozinha no escuro, mas engraçado... havia uma velinha comigo, ou um lampião, ou um pequeno vagalume a me perseguir, ou a me guiar...

            E lá criei meu trono, o decorei como queria, com flores, arandelas, músicas, riachos... lugares, mas me sentia sozinha, muito só... e me lembrei das portas e janelas e comecei a trazer outros seres para lá: um homem que fabricava chapéus, e estava descontente, ninguém o entendia, então o convidei para fabricar todos os chapéus que poderia imaginar, para quem lá fosse morar... Este homem gostava de tomar chá, então convidei um outro, especialista em ervas, chás e banhos, e este aceitou minha proposta, era um ótimo herbalista e gostava também de chás, poderia um fazer companhia para o outro...

            Ele fazia ótimos chás, muito saborosos, alguns enjoativos, outros... deixa pra lá! Trouxe também seres de outras galáxias e dimensões, uma centopeia imensa, viciada em haxixe, mas que possuía muito conhecimento e expressava sabedoria... às vezes...

            Mas como percebi depois de algum tempo... nós não controlamos nada, e nada está sobre o nosso domínio... coisas começaram a aparecer, as quais não tinha chamado e nem colocado... um gato, ou duende que aparecia e sumia... sempre me falava coisas ou me admoestava perante os meus erros... me guiava, mas eu nunca o via...

            Coisas que me dão medo, tenebrosas, começaram a surgir do meu reino, uma rainha má, com um coração de capa... Mãe, Mãe, Mãe... você por aqui... e ela tinhas guardas, vários guardas a me perseguir e me ameaçar: “cortem as cabeças”... Que cabeças seriam essas, só poderia ser só a minha...

            Neste reino o Coelho não havia por ali, pelo menos para mim, o tempo não “se” passava... voava, mas eu não via.

            E o medo tornou-se minha companhia... Um dia, belo ou ruim dia, olho para uma parede, aquele tipo de parede que não poderia estar por lá... Olho e me lembro de imaginar! Escuto o duende me dizer: “imagine uma porta e lá estará”. E assim fiz, querendo sair deste lugar “imaginário”, que eu mesmo criei, me joguei! Atravessei o pântano de ilusões e do lado de lá estava novamente, naquele vazio, naquela escuridão...

            — Cansou das suas criações?

            — Minhas... nada está sob meu controle... é tudo ilusão ou mentiras...

            — Mas parecem reais, não parecem?

            — Muito... tão reais que me dão medo! Me apavoram e me tiram o sono ou prazer de sonhar... quem serei eu nesse espetáculo todo?

            — Você: “aquela que sonha acordado”. Mas quem disse que todo sonho é mentira, e não realidade?

            — Ué?! Você não me disse que vivo no sonho?

            — Não, te disse que você sonha, mas nem todo sonho é Real, e nem todo: ilusão...

            — E como saberei qual é um e qual o Outro?

            — Olhe para os pés... o que vê?

            — Hmmmm...vejo os meus pés assentados no chão.

            — Ótimo! Então você não está dormindo, mas sonhando acordada... outros sonham dormindo e nunca acordam, jamais, vivem em suas prisões na mente, incapazes de abrir uma janela, ou alguma porta, reféns de seus medos – masmorras – prisões – calabouços... Sobrevivem na loucura, agarrando-se a outros para sobreviverem assim.

            — Então... não estou louca?

            — Não... você circula pela borda, mergulha pelo furo e olha sua imagem refletida no Espelho! Tanto côncavo, quanto convexo... Tendo se unificado e transcendido a matéria, a ilusão desta: você pode sonhar e parar de desejar controlar as coisas... Como um Fluxo, o Rio da Vida, a Vontade Divina (que é a sua, mas não sabe...), um grande Todo, o grande Ó (como você me chama...).

            — Mas se eu voltar para o Real, não teria envelhecido?

            — Sim, você envelheceu, não é mais aquela menina sonhadora e inocente... essa morreu, se foi, se perdeu num grande sonho de nunca se sonhar sendo: você! Teus pés estão no chão?

            — É... sim... acho que sim... vejo-os no chão, fixos nele, mergulhados nesse chão... nessa Terra... Mãe Terra que nos acolheu...

            — Hora de mergulhar nele então... afunde-se nessa terra- nesse barro – nesse chão... a hora Alice: é já.

            Pois bem caros leitores, mergulhei-me! Nesse chão de terra batida... empoeirada e sofrida... adentrei por suas camadas de barro e me vi num útero materno... novamente... não de mãe! Mas de transformação... E lá estava uma mulher, toda de branco! A Rainha má, a minha espera... seu vestido, ou capa, era todo branco reluzente... ela me olha com olhar profundo, sabedora de toda a minha história, de todo o meu ser... nada escapava daquele olhar, me lembrei do olhar da raposa, só que essa era ainda mais sincero, mas vívido, nada dali escapava... então perguntei:

            — Quem és tu, toda de branco?

            — Hahaha... quem sou eu Alice? Você me conhece sempre... e aliás, me conhece muito bem.

            — Sempre? Bem? Temo ao vê-la...

            — Sim... sou a Outra você... além do Espelho! A vejo por todos os lados e cenários, nada escapa do meu olhar, das minhas vestes, do meu corpo, do meu sangue, da minha saliva... te imaginei nascendo, vivendo e morrendo... agora estás aqui, na minha frente...

            — Morrendo, então eu morri?

            — Não Alice, ainda não é seu lugar, e nem sua hora.  Mas tenho um presente para lhe dar...

            — Se você me imaginou, então é você que me deseja, ou que deseja os meus desejos, ou que tudo deseja?

            — Boa pergunta, eu só desejo..., mas nada controlo, não tenho controle sobre o resultado destes... quantas vezes desejei o teu melhor, mas você não se sentiu capaz disso, não se colocou no lugar certo, não se via tão capaz assim... mas eu desejo... e continuo te desejando para sempre: o melhor.

            — Até que você se torne Eu, e Eu: você.

            — Assim se encerram os Espelhos, não é?

            — Sim, assim se finda um ciclo..., mas aqui está o teu presente...

            Ela me entregou uma flor... um lírio branco, formato de tulipa, envolto por folhas verdes... seu centro era amarelo – amarelado – amarelo: Ouro... e brilhava em toda a escuridão que eu sentia, ou poderia sentir. Sendo assim... renasci.

            E realmente, estava velha, amadurecida, contente... não uma felicidade plena e boba, mas uma alegria sentida, contida, expressa em cada fibra do meu corpo, em cada célula do meu ser, meus pés descalços estavam no chão... como Ó me disse, mas agora posso caminhar contente e espalhar as sementes daquela flor, por onde quer que eu atravesse ou vá...

            — E a raposa?

     — Hmmmm... a raposa, você me pergunta... a raposa vive em mim agora, tendo transcendido meus medos e olhado para os meus pesadelos, ela não precisa mais viver afastada dentro de uma toca – um buraco... Ela pode se ver e viver em mim agora...

            — E os outros? Do mundo que você mesmo criou?

            — Ah... esses... vivem por si mesmos, podem decidir sair dali se quiserem, ou ficarem por lá, até aquele mundo existir, ou eu querer assim imaginar...

            — E você? Como fica?

            — Ah, agradeço a preocupação comigo, mas eu fico aqui: com os meus pés no chão! E você? Vive no mundo da lua, ou procura plantar raízes e fazer sua história? A hora... é sempre: agora.

            Hora de despertar...

Acorda!"

 

Jorge C. Neves

25/07/2025

 


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