Este já foi santificado, divindade, personagem importante do clero, da realeza, entretenimento, animador infantil, apresentador de tevê, dublador de filmes, em todas as áreas, em cada cultura, sempre haverá o palhaço.
Em culturas antigas, quando havia a presença de um palhaço, uma pessoa que já nascia assim: autêntico, desbravador, maluco, sem noção, fora da curva, sem nenhum padrão, este indivíduo era considerado um mito, um totem, alguém que era observado, pois tudo que fazia, ou realizava, indicava um rumo, dava um novo sentido na comunidade em questão.
Com o tempo a figura do palhaço foi sendo institucionalizada, colocada de lado, ou colocada dentro das estruturas, assim como convinha com aquela sociedade, destruir o palhaço é insensato, impossível, e até perigoso...
Na Idade Média coube ao bobo da corte alegrar os reis e suas comitivas, e ao mesmo tempo lhe falar as verdades ocultas, alegrar o impossível, cabe hoje também alegrar bandos de crianças enfurecidas em rituais, chamados de aniversário, para que reine a harmonia e a tranquilidade de grupos de adultos que ali se reúnem para celebrar alguma coisa, uma passagem de ano talvez.
Cabe aos palhaços mergulhar nos pântanos obscuros e fedidos de umbrais por muitos esquecidos, onde a tirania, o caos, a insensatez reinam de forma suprema. Nestes locais, a irracionalidade é lei e norma, e só aqueles que dominam o caos, a desordem, e a quebra de princípios consegue ali mergulhar, ajudar e retornar são... e salvo.
Como mestre do caos inconsciente, como mergulhador profissional do limbo sub humano, o palhaço é mestre e autor da ironia, consegue conversar com a imensidão desbravada do inconsciente humano, e trazer a sua ordem, através do próprio caos. Palhaços são anarquistas de verdade, repudiam todo tipo de conceito e ordem preestabelecida, destroem as estruturas ali reinantes, e entregam o novo, o renovado, eles vêm para destruir, para que assim a ordem se restabeleça.
Há um personagem de um gibi, o “Louco” que atormentava o Cebolinha, este sempre aparecia do nada, ou pulava do sanatório, ou saía do bueiro, ou se materializava, mas quando aparecia o caos se manifestava, tudo para ele era possível, nada era tão concreto ou impossível de ser mudado, as estruturas mentais e sociais do outro personagem, neste caso o Cebolinha, ruíam que nem pó, e por fim o tal “Louco” era novamente contido e levado de volta para o sanatório, em uma camisa de força muitas vezes.
O “Louco” é a figura que habita em nós, dentro de cada um, é o mestre do inconsciente, traz ordem para todo tipo de caos, se assim é chamado à ação, mas tem seus próprios rumos, suas próprias artimanhas, seus próprios manejos da arte, não se pode iludi-lo e nem sacaneá-lo, não perca seu tempo tentando entendê-lo e rastreá-lo, ele é livre como tem que ser.
O Palhaço se faz de Bobo, para que assim possa te libertá-lo, ele está livre das convenções psicológicas, não tem título, doutor, ou bem para sustentá-lo, ele é livre de todas as amarras, livre de consciência.
Quando o Palhaço não é compreendido, analisado em sua própria existência, quando ele não se encaixa, ou não se permite encaixá-lo, ele adoece e morre: morre seus sonhos, seus desejos, sua arte, sua canção, seu brilho, tudo morre e vira pó, pobre palhaço... A tristeza acontece, os vícios, as dores, os medos, e a dor, as sombras do palhaço.
Mas quando a tristeza se vai pela alegria doada, oferecida, manifestada, o Palhaço se ergue do vazio, se levanta de sua tumba, ele renasce das cinzas da incompreensão e diverte, diverte, sorri para uma criança acamada, doente, sorri para um médico apressado, sorri para enfermeiros desencantados com a vida, o Palhaço se ergue na doação.
“Acorda Palhaço, acorda... que o riso é sua bandeira e o espetáculo está a sua frente, bora sorrir, e tirar a poeira daqueles que sentem a tristeza no coração, bora levar alegria para quem não a tem, não a possui, embora Palhaço, embora, que a vida é um picadeiro e o riso sua batalha diária no meio de corações despedaçados.”
Embora Palhaço...
Gratidão
Jorge C. Neves
27/01/2021
