Havia um sujeito,
Sujeito simples, mal arrumado, desajustado, destrambelhado,
Maluco beleza, inconsistente, atormentado,
Uma turba com ele seguia,
Para muitos dava apelidos, incomodava-os:
Um era pedra, por ser ignorante e nada compreendia,
Haviam dois que eram do trovão,
Por onde passavam confusão arrumavam,
Maluco beleza a eles também xingava:
“Não me entendem, não compreendem as minhas palavras,
E nem a minha mensagem...”
Para a patrulha que o cercava, cerceava e incomodava,
Também xingava:
“Ô bando de víboras...”
Para os cambistas que ali estavam,
Lá ele ia e chicoteava,
Para a própria mãe que o amava,
Ele virava suas costas e a ignorava,
Para todos que o seguiam e o amavam,
Ele cutucava, agredia suas crenças,
E sempre os desafiava
Queria mais,
“Vocês podem mais do que eu,
Vocês podem...”
Mas estes nada entendiam, o aborreciam,
E o entediavam,
E nem para permanecerem juntos
Para um papo, ou oração,
Estes sucumbiam e roncavam,
A nenhuma mesa recusava convite,
Era pobre, rico, prostituta, advogado,
Cobrador, religioso, ladrão,
A todos comparecia,
Na casa das pessoas boas,
E na casa das ruins,
Pelo menos na concepção das pessoas boas de então,
Comia e bebia o que a mesa estava,
Comida nenhuma recusava,
Comilão e beberrão,
Alguns o chamavam,
Se vinho acabava,
Ele criava,
Se era pão,
multiplicava,
Se era peixe,
Acontecia
Não faltava a uma festa
Gostava da balbúrdia,
Da falação,
De um papo bom com quem tivesse ouvidos para ouvir
Muitos não o entenderam
Muito menos ouviram
Confusão arrumava por onde ia
“Eita sujeito danado...”
“Coisa boa não deve ser...”
Crenças ele destruía,
Convicções ele rasgava
Certezas despedaçava
Confusão sempre criava
Onde era dois dividia
Onde havia um agregava
Estropiados a ele recorriam
Doentes, destrambelhados
A todos ouvia
A muitos ajudava
Todos muito,
Ou tudo queriam
Mas oferecer, nada davam
Contentes saíam,
Apodrecidos ficavam...
Belo dia,
Resolveu subir num burrico
Para aparecer, contagiar, inflamar
“Ô maluco beleza...”
E mais uma vez,
incomodar
Por poucas moedas vendido ele foi
Do fel amargo tomou
Do império
Que aqueles que o seguiam imaginavam
De nada restava
“minha casa não é essa
Meu império não é daqui”
Os outros debandavam,
Uns que queriam sentar ao lado do trono
Outros que o negavam
Uns que o traíram
Saiu da escola amarga
Vendido, escravizado,
Despedaçado, amordaçado,
Surrado,
Pregado,
Ali no alto dizia:
Um Rei aqui estava,
Mas seus súditos não entendiam
A ele não escutavam
Seus trapos sumiram,
De seus despojos
Nada sobraram
Seu corpo sumido
Sua alma libertada.
E assim:
“A Luz se fez na Escuridão...”
Jorge C. Neves
13/01/2020
14:40

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