segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Politicamente Incorreto


 

Havia um sujeito,

Sujeito simples, mal arrumado, desajustado, destrambelhado,

Maluco beleza, inconsistente, atormentado,

Uma turba com ele seguia,

Para muitos dava apelidos, incomodava-os:

Um era pedra, por ser ignorante e nada compreendia,

Haviam dois que eram do trovão,

Por onde passavam confusão arrumavam,

Maluco beleza a eles também xingava:

“Não me entendem, não compreendem as minhas palavras,

E nem a minha mensagem...”

Para a patrulha que o cercava, cerceava e incomodava,

Também xingava:

“Ô bando de víboras...”

Para os cambistas que ali estavam,

Lá ele ia e chicoteava,

Para a própria mãe que o amava,

Ele virava suas costas e a ignorava,

Para todos que o seguiam e o amavam,

Ele cutucava, agredia suas crenças,

E sempre os desafiava

Queria mais,

“Vocês podem mais do que eu,

Vocês podem...”

Mas estes nada entendiam, o aborreciam,

E o entediavam,

E nem para permanecerem juntos

Para um papo, ou oração,

Estes sucumbiam e roncavam,

A nenhuma mesa recusava convite,

Era pobre, rico, prostituta, advogado,

Cobrador, religioso, ladrão,

A todos comparecia,

Na casa das pessoas boas,

E na casa das ruins,

Pelo menos na concepção das pessoas boas de então,

Comia e bebia o que a mesa estava,

Comida nenhuma recusava,

Comilão e beberrão,

Alguns o chamavam,

Se vinho acabava,

Ele criava,

Se era pão,

multiplicava,

Se era peixe,

Acontecia

Não faltava a uma festa

Gostava da balbúrdia,

Da falação,

De um papo bom com quem tivesse ouvidos para ouvir

Muitos não o entenderam

Muito menos ouviram

Confusão arrumava por onde ia

“Eita sujeito danado...”

“Coisa boa não deve ser...”

Crenças ele destruía,

Convicções ele rasgava

Certezas despedaçava

Confusão sempre criava

Onde era dois dividia

Onde havia um agregava

Estropiados a ele recorriam

Doentes, destrambelhados

A todos ouvia

A muitos ajudava

Todos muito,

Ou tudo queriam

Mas oferecer, nada davam

Contentes saíam,

Apodrecidos ficavam...

Belo dia,

Resolveu subir num burrico

Para aparecer, contagiar, inflamar

“Ô maluco beleza...”

E mais uma vez,

incomodar

Por poucas moedas vendido ele foi

Do fel amargo tomou

Do império

Que aqueles que o seguiam imaginavam

De nada restava

“minha casa não é essa

Meu império não é daqui”

Os outros debandavam,

Uns que queriam sentar ao lado do trono

Outros que o negavam

Uns que o traíram

Saiu da escola amarga

Vendido, escravizado,

Despedaçado, amordaçado,

Surrado,

Pregado,

Ali no alto dizia:

Um Rei aqui estava,

Mas seus súditos não entendiam

A ele não escutavam

Seus trapos sumiram,

De seus despojos

Nada sobraram

Seu corpo sumido

Sua alma libertada.

E assim:

“A Luz se fez na Escuridão...”


Jorge C. Neves

13/01/2020

14:40

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