Escrevo este artigo diante de um fato, uma espécie de limite que foi transposto diante da tal invasão do Capitólio americano (este texto foi escrito em 2020), e não falo isto por ser uma invasão, mas pelos motivos propagados e até supostos “motivos” espirituais guiados por alguma presença poderosa diante do fim de uma civilização.
Já faz algum tempo, especialmente dos últimos 15 a 20 anos até agora, que a visão espiritualista, ou este aspecto espiritual de nossa consciência e sociedade tem sido sistematicamente sequestrado, manipulado e transformado em uma outra realidade espiritual paralela, em o que conta são likes, curtidas, ilusão, medo, dor, dinheiro, propaganda, drogas, vaidade, luxúria e diversão garantida, todas também sustentadas e mantidas por supostos gurus, videntes, xamãs etc., com fotos em lugares paradisíacos e viagens de jatinhos fretados e iates alugados.
A indústria de cegos guiando cegos ltda., funcionando a todo vapor com nossa anuência, nosso sorriso e nosso cartão de crédito, com sistemas piramidais de financiamento prometendo uma vida próspera e nababesca para poucos escolhidos ou seguidores de determinado(a) influenciador digital e remoto -nada mais é concreto – que prospera e sobrevive por likes, cursos virtuais, e pregações copiadas e coladas de uma produção em massa, visando seguidores que no fundo procuram vida fácil, fuga de suas responsabilidades e uma existência de serem sempre servidos, e não servir ninguém.
Esta fuga das responsabilidades é mercada sempre pela presença de um bode ou bodes expiatórios, e uma suposta figura salvadora que está ali para sustentar a chama da fé, da vontade, dos bons costumes, ou de qualquer coisa que faça sentido para os alvos desejados. Há muitas pessoas desejosas de darem o rumo da própria vida, e seu contrato de alma, a qualquer figura que prometa uma solução redentora, ou que fale que seus problemas derivam de algo de fora, ou pessoas ou coisas que são as responsáveis pelo que de mal ou ruim esteja ao redor. O mercado de almas à venda nunca esteve tão em alta, e nunca tantas pessoas se mostraram tão disposta a venderem a si mesmas por qualquer solução barata, frágil e inquestionável, desde que tenha o selo: “a responsabilidade não é sua, deixe com quem sabe mais”.
Buda, a milhares de anos atrás já demonstrou que o desejo é o grande mal da humanidade, quanto maior o desejo, ou mais numeroso, mais distante da felicidade o indivíduo se encontra. Ironicamente, muito tempo após, vivemos em uma exaltação dos desejos, uma sociedade onírica e hedonista com suas próprias compulsões e desejos irrefreados, sem culpa nenhuma de dizer: “eu sou o dono do mundo, e quem manda aqui sou eu... sirvam-me! Por favor...”.
Inúmeros gurus do pensamento positivo sem base real, da exaltação da realidade virtual – de um óculos colorido colocado na cara – para não perceber àquele que sofre ao seu lado, a dor exposta nas calçadas, a fome, miséria e dor gritando ao seu redor. Que prometem sempre, que Deus, o Todo, ou o Universo (como gostam de apelidar), está ali para servi-los, crianças birrentas e mimadas que querem tudo que desejam, sem tirar e nem por, pois acreditam que são merecedoras de tudo, pois são filhos e filhas deste Universo infinito. Sendo este “Universo” uma espécie de delivery cósmico, uma espécie de fretamento espacial, onde Deus seria um galpão infinito de desejos, “mercadorias”, e sua função é pedir e pedir, e Voilà! Aqui está seu desejo manifestado, sirva-se! A figura do Papai Noel se transfigurou e se misturou a figura de um Deus humano, sentado em um trono dourado e de barbas brancas que está disposto a presentear aqueles que lhe foram fiéis,” bondosos” e dedicados, que seguiram a sua cartilha, seja qual for, e merecem serem recompensados por suas fidelidades; figura patética servindo a interesses egóicos, infantis e irresponsáveis de uma humanidade que se recusa a agir, a crescer e a Ser.
Mas o que é o universo senão o espaço onde se localizam, as estrelas, os astros, os planetas, constelações, nós, as formigas, as amebas etc. Nada mais que uma casa onde as coisas podem existir e acontecer, provavelmente uma casa dentro de outras casas, que não temos condições de ver e nem analisar. E assim como é uma casa, ou a casa onde moras, ela não está ali para servi-lo, no máximo para acolhê-lo, mas não adianta pedir seus desejos para a sua casa, ela não irá ajuda-lo: “Casa, eu desejo isso, aquilo, desejo ser próspero... me ajude Casa!”. Sua presença e energia, somado aos outros que habitam dentro da sua casa, interferem na composição e na egrégora Casa, como um só organismo, mas ela não irá respondê-lo, a sua casa, assim como Deus, como o Todo, não está interessado em seus desejos egóicos, mas somente nas suas necessidades.
Deus, o Todo, está interessado em resolver as suas necessidades, assim como dar força a quem precisa, saúde a quem necessita, alegria ao atormentado, paz ao desesperado, luz ao perdido, fé ao abandonado, mas cabe a você fazer a sua parte, sabendo que o indivíduo em si não sabe quais suas reais necessidades e caminhos, mas é a esta presença superior que tem que ser falada, aberta esta porta para que esta Luz o conduza em segurança para o caminho que nem você sabe bem qual seja, e nem o dia de amanhã, mas tenha a certeza e confiança de que uma mão me guia, me abastece, me conduz em segurança, sendo assim não tenho o que temer, e nem me amedrontar, estou seguro em mim mesmo e nesta Força que aí está.
Enquanto teorias de prosperidades quânticas, ou qualquer ideia quântica que em si nada significa, e nem está atrelada a real física quântica – conceito da Física real, que na verdade só mostram a tal porta larga e aberta onde a grande maioria quer entrar, distante da porta estreita por onde poucos se põe a atravessar, apesar de muitos a conhecerem.
“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela...” (Mt 7:13,14)
As portas largas são aquelas que seduzem pelas facilidades e isenção de responsabilidades, sejam quais forem...
E quando as portas largas foram institucionalizadas e propagadas, que é o que mais se vê nas redes sociais como suposta espiritualidade; institucionalizamos também os cegos guiando cegos, e lhes dêmos suporte, razão, espaço e comício, seguidores, facilidades e espaço tanto na mídia quanto fora dela; “é isso o que queremos, é o que gostamos, dá audiência, é o que nós precisamos para se esquecer de nós mesmo” – é o ópio do povo.
Há os cegos em si, pessoas até de boa vontade, mas longe de qualquer percepção à realidade, falsamente sugestionáveis e enganáveis, que por uma suposta vontade de auxiliar acabam virando joguete na mão de outros e guiando mais cegos a lugar nenhum – “de boas ações o inferno está cheio”. Há os supostos “espertalhões”, cambistas da fé alheia que se apercebem da fraqueza dos outros e ganham seu pão e sustento mercantilizando os despojos arrancados dos “fiéis”. E há os que realmente querem destruir e cegar, conscientemente ou de maneira inconsciente acreditam que não receberão o retorno de suas ações e que exista uma outra saída.
Bom, e quando digo que chegamos a um ponto de convergência, em que ideias propagadas até no meio supostamente espiritualista, seja como movimentos como “Qanon”, ou outros propagadores, não só no meio americano, mas já com seus tentáculos no Brasil e em outros países, e que leva a alguns personagens da invasão americana acreditarem estarem no lado do “bem”, da “luz”, defendendo uma figura política como sendo uma espécie de salvador da liberdade contra inimigos detestáveis – todos de ideias contrárias – todo um discurso de ódio e fake News propagado e misturado. E isto ocorre também no Brasil, como se determinadas figuras, ou figuras políticas fossem representantes crísticos da nação, lutando contra um suposto mal oculto, pode facilmente descambar a atos grotescos e impensados, que ultrapassam as liberdades individuais podendo gerar retrocessos inimagináveis.
Figuras como o suposto xamã vestido de rena, propagando discursos de cunho supostamente espiritual mesclado com defensoria da liberdade e da figura política reinante, tudo isto acaba levando a uma desmoralização da própria espiritualidade na mente de cegos, e dos cegos que guiam cegos, e de qualquer boa vontade naqueles que sentem que há algo a mais a ser desbravado, conquistado, aberto, mas não encontram guarida, caminho, resposta.
Episódio triste para a nação americana, mas mais desanimador para aqueles que veem a espiritualidade ser transformada em artigo de luxo a ser vendido em butique em alguma avenida cara de alguma cidade sem alma e nem coração.
“Acorde enquanto é Tempo, pois os cambistas e mercadores da fé alheia já ergueram as suas cabanas, os fariseus e saduceus já estão em pé em seus templos e suas sinagogas, e todos aqueles de boa fé que estão à espera de um salvador, ou de uma salvação, já se perderam nas ladainhas que escutaram por aí, pelas ladeiras do templo.”
Jorge C. Neves
11/01/2020

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