“- Mais um ciclo que se finda,
Um pequeno ciclo mundial,
Mais torpeza e embriaguez me resta para suportar este
trabalho, esta profissão que me deram de um “bom velhinho”,
Uma aposentadoria eterna me é negada! Sempre…
Me relegaram neste deserto de gelo e neve, minhas dores de
coluna e artrose são badaladas diurnas e noturnas,
Não sabem que este tempo, e baixas temperaturas, não é um
lugar saudável para alguém velhinho… e bemmm idoso.
Me condenaram a uma Sibéria distópica e onde minha única
permissão de sair deste inferno gelado é em cima de um trenó velho e
desconfortável, puxado por renas já também idosas e esquecidas do que são,
Nem conforto eu mereço…
Tem um tal de Rudolph, que trabalhava aqui na carpintaria
comigo, coitado, esse enlouqueceu de tanto frio e solidão,
Bebe tanto que seu nariz brilha,
Pulsante, vermelho,
Se amarrou nesse trenó e se acredita Rena…
Coitado,
Sempre que eu reclamo, aparece uma criança chata e reinenta
me pedindo presentes, pais e parentes enlouquecidos e hipnotizados buscam meu
coro, minha barba, meus brancos cabelos e minha roupa desgastada pelo tempo,
Antigamente eram cartas e cartas de muitos lugares, depois
mails na caixa postal, agora são mensagens eletrônicas que nem vejo mais…
Meus óculos já não me servem, e também ninguém se importa,
Nem comigo, e nem com o que pedem,
Só bobagens,
Anões e duendes me enlouquecem reclamando de melhores
salários e condições favoráveis de horários alternativos e folga nos finais de
semana…
O mercado, esse deus que me gerou em suas necessidades e
expectativas, me arranca a bílis, meu fígado e minha alma! Sempre…
Estou cansado de ser Bom… o bom velhinho! O bom velhote…
Aquele que tem que encher o saco dos outros, sempre…
E enche de coisa, de caco, e enche meia de Natal, enche
cueca,
Passa pela chaminé de alguém… que tenha casa, comida e
salário,
E quando a fogueira está acesa, quem se queima sou eu, tem
gente que deixa um biscoito pra eu comer e um leite pra eu tomar… eu lá quero
isso?!
Adicional de periculosidade… cadê??!
Eu sou só um bom velhinho, otário,
Sendo explorado por mim mesmo, por não poder dar um não para
essa escória que me ama de paixão,
E me usa:
Como presente, como mercadoria, como ilusão.
Sou só uma ilusão travestida de “pecado”:
- Vamo, vamo duendada! Vamo lá que o povo quer dormência!
Traz lá a minha pinga Juvenal, que a noite será longa, ainda muito longa.”
“Setor de Reclamação das Velhas Boas”
O Bom Otário.
Jorge C. Neves
17/11/23

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