terça-feira, 2 de março de 2021

Um Quadro em Movimento


 

Sabe esse quadro aí... Minha avó que pintou há 57 anos atrás, em 1964, tenho um outro dela também... Se ela era pintora? Ou gostava de pintar?... Não sei te dizer e nem te contar, nunca a vi pintar nada, nem desenhar rabisco nenhum, ela gostava de escrever em umas agendinhas tudo aquilo que a interessava ou a marcava, alguma curiosidade qualquer, datas comemorativas, receitas diversas de bolos e doces, coisas da vida, alguns como aqueles almanaques de farmácia, o tal do almanaque “Sadol” do passado...

Mas sei que ela pintava, tenho as provas comigo, as provas do crime, mas sobre isso ela nunca falou e comigo nem comentou....

Minha avó tinha um sonho do passado, de infância, isso ela sempre falava, que era o teatro, participar do teatro e ser livre... isto ela contava....

Contava também a única memória que ela tinha do pai, “papai” para ela, “o papai, papai...” Que lá atrás, pequena e no começo da juventude, lá estava ela vendo uma encenação de teatro na rua, na praça, e aparece seu pai, bêbado e a espanca na rua e a arrasta pelos cabelos até em casa, na rua, na frente de todos, na frente do povo...

Minha avó contava esta história várias vezes, de uma forma vazia, sem emoção alguma, como uma forma autômata, antes de expressar um “papai” bondoso...

Minha avó gostava de costurar, costurava bem ela, tinha a sua máquina, e aprendeu como? Na marra... Foi autodidata, em uma época que para ter roupas era preciso plantar algodão, colher e criar... Aprendeu observando roupas já prontas, as descosturando e refazendo o processo, engenharia reversa é como é chamado isso hoje... Teve um incentivo sim, ou ela costurava e criava as roupas, ou por seu pai, bêbado, apanhava... e apanhava...

De meus bisavôs e bisavós, não conheci nenhum, quando nasci todos já tinha ido, se foram antes de eu vir, deste meu bisavô, pai de minha avó, tenho um banco e um aparador de madeira, todos feitos à mão por ele, sem maquinário elétrico algum, trabalhados e desenhados... Diz-se que trabalhava bem a madeira, tinha um dom, o banco continua inteiro, intacto, o aparador, depois que minha avó se foi, começou a ser devorado por cupins, de baixo para cima, dos pés à cabeça, ainda está aí, não sei até quando ficará em pé...

Sei de outras histórias por outras, que eram crianças ou adolescentes quando eles, meu bisavô e bisavó, ainda eram vivos, mas já bem mais idosos. Falam que ele era bom com os netos, amoroso, e tinha fama de briguento e mulherengo com a vizinhança...

De minha bisavó... nada sei, ninguém tem história para contar... só que ela era uma mulher muito boazinha e amorosa... resiliente, como muitas mulheres que sorvem o fel amargo da vida acabam por se tornar...

Bom, minha avó não conseguiu se libertar, não ousou se aprofundar nas próprias misérias humanas que carregava, não se permitiu jogar para fora o julgo da dor, da vergonha e do medo que a aprisionava, não se permitiu também chutar o algoz, berrar para ele, esmurra-lo se assim fosse... não se permitiu Amar! Amar a si! A si mesma, como deveria estar...

Não ousou arremessar longe a batida da surra, do golpe e da dor, dos seus cabelos arrastados pelo chão... Minha avó usava bobs no cabelo, eram sempre curtos, bem curtos, talvez para que ninguém mais pudesse agarrar...

Não se permitiu olhar para trás, para o pai, o “papai” e berrar, dizer que estava errado, que não era certo, que o hoje precisava mudar...

Não ousou viver a sua energia, sua magia, seu encanto, sua arte, seu teatro, seus sonhos... não estavam lá....

Vivia com medo, bastante de tudo, de trânsito, de ladrão, de roubo, de incertezas, de traições, não se permitia Amar, como merecia, como deveria...

Se permitir Amar... como é difícil encarar a realidade passada, a realidade humana dos outros, das pessoas, da família, se encarar no espelho da dor, do medo, do desamor...

Aceitar que o outro é falho, humano, monstruoso também, que não se deve criar fantasias que não existem, heróis onde não estão, se aceitassem mais nua e cruamente o outro como ele é, poderiam assim aceitar-se enfim, sendo quem realmente é...

Eu aceito meus antepassados, com toda sua dor e humanidade, falta de amor e incompreensão, não quero criar fantasias inócuas, placas de honra ao mérito banhadas em ouro, cravejadas de dor. Se ao menos procurássemos a verdade, sermos verdadeiros com eles, que vieram antes de nós, o honraríamos como deve ser, com verdade, reconhecimento, e Amor...

O Amor dói às vezes, dói... a Verdade incomoda, prega, irrita, esfola...

Meus antepassados foram seres humanos, com sonhos interrompidos, tragédias, vergonhas, medos e horrores passados, há que encarar o passado então, abraçando em si mesmo, o Amor que não souberam dar, nem viver, nem reconhecer, muito menos aceitar.

Coube ao menos a mim, recontar esta história da qual minha avó não conseguiu se libertar, para que ela assim se desenvolva, caminhe, se liberte, ouse pintar novamente, desenhar, rabiscar, cantar, dançar, se expressar, extravasar, sorrir, amar, sei lá... ser Ela como desejar...

Que assim seja para todos os meus ancestrais, para todas as mulheres da minha família, para os homens que estão atrás de mim, para os que vieram antes então, para que a música toque, para que aquela peça de teatro lá atrás, possa ser encenada novamente, só que desta vez ela estará lá, no palco, contracenando com os outros, em lugar de destaque, como ela gostava de estar....

Que o Amor brilhe no coração de cada ser humano, que os sonhos possam ser despertados novamente, que ninguém para de sonhar... que assim...

Seja.


Jorge C. Neves

02/03/2021

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